A Casa de Hades – Capítulo II – Nico

Quando Nico se concentrou e chamou por Morgan em seus pensamentos, nunca lhe passaram pela cabeça que aquilo iria acontecer. Mas então todas as armas disponíveis no Argus II foram apontadas para a moça e ele percebeu que provavelmente era um erro chamar uma filha de Hecate perto dos semideuses Romanos que lidaram com grande parte do exército de Chronos – ao contrário de Percy e grande parte do Acampamento Meio-Sangue – que tinha enfrentado apenas a tripulação do Princesa Andrômeda; o clima já tenso no navio ficou ainda mais tenso com aquilo.

É… realmente uma péssima ideia, ideal para coroar os acontecimentos do dia.

– Então, você conhece esses caras?
– Como você conhece ela?
– Você conhece eles?!

As vozes de Nico, Jason e Morgan soaram em uníssono, o que teria sido engraçado em qualquer outra circunstância, mas não agora. Ela encarou o filho de Júpiter denovo, os olhos verdes faiscando.
– Claro que eu conheço esse bully exibido! Enquanto eu tentava bater em retirada com meus irmãos, ele chegou com os amiguinhos pretores dele e quase destruiu todos nós! Nós! Sem magia, sem armas, sem nada! – ela estreitou os olhos verdes, feroz
– Aquilo era uma guerra! Vocês nos atacaram primeiro!
– Ei vocês dois!! – Piper ergueu a voz, e eles olharam, mesmo sem ela ter usado charme – vocês estão discutindo sobre a guerra de Chronos, ou sobre quem roubou o lanche de quem na escola?

Jason ficou quieto. Morgan trocou o peso de uma perna para outra, desconfortável.

– Agora, você, Morgan certo? – Piper virou-se pra ela – Você não negou que participou da guerra de Chronos. Por que participou?
– Pra guardar os traseiros mágicos dos meus irmãos sem noção. Como se alguém realmente pudesse acreditar que Chronos seria todo amor e carinho com os semideuses se ajudássemos ele a ganhar a guerra… pff… – ela revirou os olhos, bufando, como se já estivesse cansada daquele tipo de pergunta

As armas de fogo da filha de Hecate se recolheram na forma de anéis nos dedos indicadores da garota. Ela retirou o manto de veludo negro que vestia e o dobrou sobre o braço esquerdo.

– Olha, eu realmente não quero encrenca com nenhum de vocês. Di Angelo me chamou com uma magia que eu dei pra ele, depois que ele me ajudou em uma missão pessoal. Eu juro pelo Estige que estou falando a verdade.

Hazel e Frank se entreolharam e deram de ombros, meio desconfiados, mas recolhendo as armas. Piper parecia mais tranquila, e encarava Jason como se dissesse para que ele deixasse de ser cabeça dura. Relutante, ele guardou sua espada de Ouro Imperial. Nico suspirou, aliviado. Morgan o encarou, curiosa.

– Então, você encontrou o que estava procurando?
– Sim. Sim, na verdade eu te chamei exatamente por isso.
– O encantamento deu certo? – então ela observou Nico dos pés a cabeça, percebendo o estado semi-lamentável do semideus – Por Hecate, não funcionou não é? Ai, eu sabia que…
– Não, não é nada disso. Eu acho que suas proteções me ajudaram sim, e bastante. Mas, depois eu fui capturado por titãs e… – ele fez um gesto, como se exibisse a si próprio – não é uma história agradável.
– Não, não deve ser. Bem, continue. Você me chamou…?
– Por que pensei que você poderia nos ajudar a fechar as Portas da Morte. A Profecia fala sobre sete semideuses atenderem o chamado. Não podia pensar em mais ninguém.

Aquilo pareceu pegá-la totalmente de surpresa. Ela piscou algumas vezes, encarando Nico, como se estivesse processando as informações.

– Eu, completar o quórum da missão que pode decidir o destino do mundo como nós conhecemos?
– Viu como parece uma péssima ideia?…
– Jason!
– Eu não vejo porque não. – ela sorriu para Nico, e então voltou-se para Jason com o mesmo sorriso – Podem contar comigo pra fazer essa missão dar certo.

Jason não parecia muito feliz com a perspectiva de viajar com uma filha de Hecate e antiga adversária, a bordo do Argus II, mas Morgan tentava agir com confiança, mesmo com os olhares desconfiados que recebia de Hazel e Frank.

– Sendo assim… bem. Meu nome é Morgan de Alcântara. LeFey, – ela disse a palavra com sonoro desdém – como o Grace ali me chamou era meu nome de guerra, por assim dizer. Os romanos eu conheço, mas vocês dois não. – ela voltou-se para Piper e Leo
– Me chamo Piper McLean.
– Sou Leo Valdez, o almirante desta embarcação. – ele estufou o peito, orgulhoso
– Classy, hein? – ela correu os olhos pela embarcação, concentrando-se nas armas – não tem um ninho do corvo, mas as armas estão bem posicionadas. De quê é feita a munição?

Leo parecia feliz em explicar todos aqueles pequenos detalhes que apenas ele e Morgan pareciam compreender. O horizonte começava a ficar alaranjado, indicando que logo seria manhã, e ninguém tinha descansado a noite toda. Hazel decidiu colocar a mesa para o café da manhã, com a ajuda de Frank e Piper. Jason observava Morgan, desconfiado, enquanto ela discutia pormenores técnicos (e chatos) sobre as armas do navio com Leo. Nico respirou fundo, sentindo-se responsável por aquilo, mas achou que não era a hora de dizer nada. Foi para cozinha, onde Piper conversava com os outros.

– … hm, mas então não é tão grave assim, acho.
– Ela parecia estar em conexão direta com os líderes entre os semideuses. Tinha um filho de Hecate muito forte por lá, chamado Alabaster. Acho que ele estava no Princesa Andrômeda no dia da batalha, porque foi Morgan quem apareceu na vanguarda por terra. – Frank ajudava Hazel com as bandejas de comida
– Nunca tivemos nenhum problema muito grande com ela, na verdade, além disso. Mas, vários filhos de Hecate derrubaram muitos do nossos. – Hazel suspirou – do mesmo modo que nós derrubamos muitos deles. Se ela realmente está aqui para nos ajudar acho que… bom, acho que não podemos insistir nessas coisas que já aconteceram.
– O último trecho da profecia ganha um sentido novo com ela por aqui. – Nico intrometeu-se no meio da conversa – E Inimigos com Armas / Às Portas da Morte, Afinal.
– Annabeth pensou que se tratava apenas do Acampamento Meio-sangue e de Nova Roma, mas pode ser que estivesse falando dela também.

Silenciosamente, eles concordaram. O café da manhã seguia tranquilo e sem muitas conversas. O cansaço era visível no rosto e nas olheiras de todos. Não demorou muito, Leo e Morgan chegaram, ainda conversando sobre as armas do navio. Ela se sentou e sorriu, fazendo um prato para si, evidentemente tentando se enturmar, mas era óbvio que ela se sentia intimidada naquele ambiente cheio de semideuses estranhos, dos quais ela havia atirado em pelo menos três no passado.

– Então… de onde você é?

Ela continuou comendo, sem perceber que a pergunta de Piper tinha sido dirigida para ela. Percebendo, ela parou de comer e engoliu a comida.

– Hm, bem, eu nasci em São Paulo, no Brasil. – e então ela deu um sorrisinho – e não, nós não temos macacos andando pelas ruas, se essa era a próxima pergunta.
– Ah… – Leo se encolheu denovo na cadeira, como ele tivesse pensado em perguntar aquilo
– Hey! – ela o encarou, falsamente incrédula, voltando ao normal depois – Aliás… Levesque, Zhang, eu acho que preciso me desculpar por todos aqueles tiros em seus escudos, na guerra. Acreditem, não era nada tão pessoal quanto os outros quiseram fazer parecer. Mesmo.
– Não se preocupe com isso, não é como se tivéssemos deixado barato mesmo. – Frank deu de ombros – mas se é assim, tenho que me desculpar por quando acertei aquela lança no seu ombro.
– É… acho que estamos quites então.

Nico parecia aliviado com aquilo. Quando Jason finalmente apareceu, o clima na mesa era bem leve e descontraído, e o filho de Júpiter e a filha de Hecate não trocaram farpas como antes. Ainda não tinham sofrido nenhum ataque naquela manhã, então aproveitaram o tempo para se recuperar e discutir qual estratégia adotariam a partir dali.

– Nós não podemos simplesmente continuar enfrentando os ataques de Gaia sem nenhuma estratégia. Isso vai minar nossas forças, exatamente como ela quer.
– Sim, mas seguir por terra definitivamente não parece a melhor ideia que poderíamos ter. – Hazel observava o mapa que tinham sobre a mesa, junto com todos os outros
– Do ponto de vista de artilharia, é melhor ficarmos com a vantagem da altura. – Morgan limitou-se a dizer, enquanto comia uma tigela de sucrilhos com leite – no céu, a vantagem é sua, Grace.
– Mas, e os ataques? Nem todos nós temos a vantagem no céu. – Frank deu de ombros – embora nossa viagem voando seja muito mais rápida até o monte Épiro.

Todos concordaram silenciosamente com aquilo. Nico estava quieto, pensativo, quando percebeu os olhos de Morgan sobre si.

– Eu sei que temos que salvar o mundo e tal, mas alguém pode me explicar qual é a nossa pressa, exatamente?

Nico iniciou o relato sobre sua busca, e deixou que os outros prosseguissem quando souberam que ele havia sido capturado pelos titãs e feito refém dentro de uma ânfora. Hazel e Jason contaram-lhe sobre a busca de Annabeth ao mesmo tempo em que procuravam por Nico, e como ela e Percy haviam sido puxados para o Tártaro pelas teias de Aracne. Revelaram, ainda, que precvisam atravessar as Montanhas Apeninos na Itália para então seguir em linha reta até o Monte Épiro, onde encontrariam as Portas da Morte do lado Mortal dentro do templo de Hades. Ela absorveu todo relato silenciosa e pensativa, os olhos verdes cintilando.

– Ok… eu entendo perfeitamente a pressa de vocês mas, precisamos pensar em algumas coisas. Não sabemos qual é o esforço de guerra inimigo próximo ao monte Épiro, então não sabemos quanto dos nossos recursos gastaremos para criar um perímetro seguro. Assim, também não sabemos por quanto tempo podemos manter o perímetro seguro. Não sabemos quanto tempo dois semideuses feridos levarão para atravessar o Tártaro até as Portas da Morte, e acho que concordamos que não seria inteligente simplesmente entrar lá atrás deles, quando chegarmos ao nosso destino.
– Então, o que você sugere? – Jason encarava a menina de braços cruzados, sério
– Nada. Eu não sei o que posso sugerir. – ela balançou a cabeça, negativamente – Levesque tem razão, continuar no ar é melhor. Mas vamos chegar bem rápido no ponto de encontro, e isso não é exatamente uma vantagem.
– E se montarmos um acampamento por lá? – Piper sugeriu – não tão perto assim das portas da morte, mas podemos tentar encontrar um local seguro que seja próximo. Podemos conhecer a região e tentar tirar alguma vantagem daí.
– Montar acampamento? E como vamos evitar que nos encontrem?
– Posso providenciar proteções mágicas. – Morgan comeu mais uma colherada de sucrilhos – não é exatamente a minha especialidade, mas vai salvar nossas bundas por um tempo. Também não vamos ficar na cara do exército de Gaia né…
– Precisamos examinar o terreno para encontrar um local estratégico pra retirada e defesa. – Jason concluiu – Leo será que o Festus pode ajudar com esse tipo de varredura?
– Claro que pode. Posso pedir pra ele buscar por padrões de relevo mais favoráveis como esconderijo, fontes de recursos, coisas assim.
– Isso é genial!

Rapidamente, discutiram o que seria necessário haver na região de acampamento. Não tinham muito que se preocupar com comida e água potável, graças às bandejas enfeitiçadas como no Acampamento, e da Cornucópia, mas decidiram que um local rico em recursos como madeira, Bronze Celestial e Ouro Imperial seria uma boa escolha, visto que assim Leo poderia continuar desenvolvendo as melhorias necessárias para o Argus II.

Festus encontrou um local próximo da Montanha Pindo, quase na fronteira com a Albânia. Imediatamente, começaram a se dirigir para lá a toda velocidade.

Nico jamais pensou que viveria para ver um local como aquele. O vale Italiano extendia-se por além da vista, e era cheio de nuances de verde e tons terrosos. O céu estava azul e limpo, salpicado por nuvens brancas e fofinhas, e era possível ver alguns pássaros voando pelo céu. De um lado, a grande muralha/espinha dorsal da Itália erguia-se imponente e majestosa, mas olhando com bastante atenção era possível perceber a movimentação de tropas de monstros no solo, em direção às montanhas. Uma sensação ruim tomava conta do garoto conforme se aproximavam; a mesma sensação quando ele percebeu que não poderia fugir dos titãs que o tinham capturado. Deixando esses pensamentos ruins de lado, Nico voltou a concentrar-se na paisagem que sobrevoavam quando Morgan se aproximou do rapaz.

– Quase não dá pra acreditar o quão perto as Portas da Morte ficam daqui… – ela se apoiou na murada, olhando para baixo – mas como temos companhia lá embaixo, tenho certeza de que estamos no lugar certo.
– É… eu pensei que fôssemos encontrar parte do exército de Gaia, mas não imaginei que pudesse ser tantos.
– Precisamos nos preparar para um ataque. Estamos muito perto dos inimigos agora, não vamos passar despercebidos tão fácil. – e fez menção de ir embora – aliás Di Angelo, obrigada por confiar em mim pra completar o time.

Ela sorriu e saiu em direção a Leo, perguntando ao rapaz se era possível voarem contra o vento para evitar que os monstros sentissem o cheiro dos semideuses. A rota do Argus II foi então alterada. Nico não sabia exatamente o porquê, mas sentiu-se bem com o sorriso que Morgan lhe dirigira, de maneira tão sincera e espontânea.

Foi mais ou menos nesse momento que a primeira pedra caiu no convés.

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