A Casa de Hades – Capítulo IV – Leo

Leo estava vivendo um breve dilema interno: não sabia se entrava em desespero e lágrimas por causa da pedra que afundara um pedaço do convés do Argo II, não sabia se jogava a pedra de volta lá embaixo, não sabia se ativava as armas ou então se manobrava o navio voador para fora da rota das novas pedras que despontavam no horizonte. Decidindo pelo mais seguro e óbvio virou o navio todo a estibordo, tendo apenas tempo de gritar para seus amigos se segurarem em algo.

Da cabine, Hazel, Jason e Piper despontaram, tentando se manter equilibrados no convés que agora estava virado a quase 45°. Morgan escorregou pelo convés com a virada brusca, mas foi segura pelo treinador Hedge, que se lançara de barriga pelo convés como um pinguim na neve, alcançando a mão da menina e se mantendo a bordo com a murada. Leo fez mais uma manobra, desta vez para bombordo, quase derrubando Nico (que tinha se segurado a tempo na murada, mas fora pego quase desprevenido na nova virada).

– Valdez, é melhor você se decidir ou eu vou enfiar esses controles na sua…
– Pedra no convés!! – Morgan puxou o treinador, também impedindo-o de continuar a frase
– Jason, você não pode mantê-las afastadas?! – Frank surgiu, finalmente, mas sua camiseta estava suja de molho barbecue e queijo
– Deixa comigo!!
– Almirante Leo, canhões! Como eu opero?! – Morgan subia até a ponte do navio, onde Leo estava
– Aqui, pega esse controle e essa mira! – ele jogou na mão da moça um controle de Wii preto e um capacete
– E como funciona?
– Mire e atire!!

Sem delongas, ela enfiou o capacete na cabeça e começou a disparar balas de canhão na direção das pedras, transformando três das cinco em detritos do tamanho de tijolos, que Jason, por sua vez, conseguia desviar melhor com o vento do que pedras enormes. Nico, Frank e Piper tentavam, com a ajuda do treinador, tirar as pedras do convés, que só estavam deixando o navio pesado e desbalanceado, enquanto Hazel tentava detectar alguma coisa naquelas rochas que ela pudesse usar para desvia-las também, felizmente percebendo uma grande quantidade de quartzo naquelas rochas. Não era exatamente o melhor exemplo de pedra preciosa, mas valia a pena tentar. Leo manobrava o Argus II da melhor maneira para aquela situação, mas enquanto não destruíssem os trebuchets do exército inimigo, lá embaixo, não adiantaria nada desviar de suas rotas.

– Gente, é o seguinte! Temos que destruir aquelas coisas lá embaixo, que estão atirando em nós!!
– Ótima ideia! Como?!
– Tô trabalhando nisso ainda!!
– Tudo bem Almirante, temos todo o tempo do mundo… ou enquanto nossas balas de canhão durarem!

Leo foi tirado momentaneamente de seu raciocínio quando Frank, Nico, treinador Hedge e Piper conseguiram tirar a primeira pedra do convés, já que ele teve que contrabalancear o peso extra a estibordo com os controles, até que a pedra estivesse caindo. Ele olhou para baixo, pensando que uma hora as pedras dos trebuchets acabariam, mas então se lembrou que eles estavam em uma montanha e que provavelmente isso demoraria a acontecer. E assim, a resposta para aquele problema pareceu surgir.

– É isso!! Morgan!! – ele gritou da ponte, animado
– Estou ouvindo.
– Vamos bombardear a montanha com tudo o que temos e dar a esses monstros um pouco do próprio veneno!!
– Você quer causar uma avalanche?! – ela gritou de volta, encarando o semideus com o visor do capacete levantado
– A maior de todas elas!
– Cara, como eu AMO esse trabalho!!

E com o sorriso mais insano que Leo já tinha visto numa pessoa (incluindo-se na lista, quando ele acordava especialmente de bom humor no Bunker 9), ele manobrou o Argus II para que a filha de Hecate tivesse uma visão melhor do alvo. Com um estrondo de fazer todos levarem as mãos aos ouvidos ela disparou todos os canhões de bronze celestial num paredão da montanha, criando uma avalanche de pedras absolutamente colossal (e incrível, para quem estivesse vendo do alto). Lá embaixo, o exército inimigo se agitou, parecendo bater em retirada, e visivelmente muitos deles se desfizeram em pó. Antes que se regenerassem, Leo levantou voo o mais alto que podia com Argus II, desaparecendo no meio das nuvens. Houve uma comemoração no convés.

– Graande Almirante! – Morgan devolveu o capacete e os controladores de disparo para Leo, socando amigavelmente o braço dele em seguida
– Que eu sou demais já sabia, mas aqueles tiros foram incríveis! Nem eu sabia que aqueles canhões eram tão precisos!
– Só umas coisas que eu aprendi por aí. – ela sorriu, dando de ombros

O jovem sorriu de volta, feliz por ter alguém tão hábil quanto ela por perto. Agora só precisavam improvisar coordenadas de pouso e iniciar os reparos merecidos ao convés, já que agora os andares inferiores do navio haviam ganhado um teto solar que não fazia parte do projeto original. Felizmente, a área onde os quartos ficavam tinha permanecido intacta.

Já era o final da tarde quando finalmente pousaram. Como já era quase noite, decidiram que seria melhor descansar no navio e então começar a montar o acampamento na manhã seguinte. Com a ajuda dos outros, Leo improvisou uma cobertura com lona sobre o buraco deixado no convés, pro caso de chover ou algo do tipo (embora não houvesse nenhum indício de que poderia acontecer, mas do jeito que a sorte andava, era melhor não arriscar), e o jantar foi um pouco mais animado do que o café da manhã tinha sido, sem dúvida por causa da recente fuga bem sucedida. Leo esperava que a aparência e vivacidade de Nico melhorassem com o passar dos dias, porque não era como se de semi-morto para semi-vivo houvesse realmente muita diferença; ele não havia tido contato com o irmão mais novo de Hazel antes, mas ele podia apostar que o garoto ainda tinha muito que se recuperar se sua viagem ao Tártaro. Por esse motivo ele não se incomodava com a postura protetora do grupo em relação ao garoto, embora, se o filho de Hefesto pudesse apostar seu cinto de ferramentas nisso, Nico não estivesse muito contente com a superproteção, ainda que não dissesse nada.

A noite avançava e os turnos de vigia foram definidos: Piper, Frank, Hazel, Jason, Morgan e por fim Leo.  A filha de Afrodite se colocou no convés com um cobertor e uma garrafa térmica cheia de chocolate quente para aplacar o frio que vazia a noite. Já Leo, naquele momento, tentava resolver um imprevisto não calculado antes: a falta de quartos no navio. Ninguém parecia confortável em deixar Morgan e Nico com os quartos de Annabeth e Percy, especialmente eles próprios. Na verdade, ninguém esperava que mais de 7 semideuses viajassem a bordo do Argus II de uma vez, nem o próprio Leo.

“Nota pro futuro: as profecias raramente querem dizer o que parecem dizer de cara… não pensar em quantidades, do que quer que seja, quando essas quantidades forem apresentadas em profecias”.
Ao menos, cobertores eles tinham de sobra, então Morgan não parecia realmente incomodada em ter que dormir no chão, mas Hazel parecia preocupada com Nico, então decidiram que o menino ficaria no quarto dela e ela dividiria o chão com Morgan. Leo cogitou oferecer seu quarto no lugar de Hazel, mas a menina estava tão resoluta que aquilo não parecia mais negociável. Morgan e Hazel sentaram lado a lado no convés do Argus II, protegendo-se do vento atrás da cabine de comando e embrulhando-se nos cobertores sobressalentes.

Ainda de noite, a mente do filho de Hefesto estava a mil por hora, com ideias e meios para iniciar os reparos no casco, além da implantação da Esfera de Arquimedes, mas aquilo teria que esperar até o dia seguinte, com uma iluminação melhor. Afastou os pensamentos ruins sobre todos os possíveis motivos da noite estar tão silenciosa, e foi se deitar.

Os turnos de vigia de todos os semideuses transcorreram normalmente. Leo foi desperto sentindo uma mão em seu ombro. Morgan o encarava, com uma caneca de chocolate quente na mão, e uma segunda caneca do mesmo conteúdo, estendida na direção do rapaz.

– Bom dia, almirante Bela Adormecida. O convés é todo seu.
– Obrigado Morgan. – ele coçou os olhos, ainda sonolento; tinha adormecido sobre alguns pergaminhos que ficara lendo na noite anterior
– Não esquece de limpar toda essa baba do rosto e dos pergaminhos, senão vai ficar feio nos dois lados daqui a pouco.
– Ah…

Com isto, a filha de Hecate desapareceu rumo à cozinha. Leo encaminhou-se para o convés, onde Hazel tinha voltado a dormir após o final de seu turno. Ele odiava admitir, mas a jovem ficava particularmente bonita dormindo daquela forma, com os primeiros raios de sol despontando no céu. Ele assumiu seu posto de vigia olhando para Hazel de esguelha vez ou outra. Quase gritou quando ouviu a voz de Morgan atrás de si.

– Melhor ficar de olhos naqueles arredores, e não nesses. – ela se agachou ao lado do semideus, comendo um lanche e deixando a caneca no chão, logo a sua frente, encarando o horizonte
– Como diabos você faz isso?
– Isso o quê?
– Garota, você anda feito um gato com esses coturnos!
– Ah, é fácil quando você está acostumado. – ela deu um sorrisinho maroto – preciso ser mais silenciosa do que um gato se quiser fazer às vezes de um sniper.
– Sniper? – ele ergueu uma sobrancelha, fingindo medo – ainda bem que você não quer nos matar.
– Existe muito pouco que eu realmente quero matar, relaxa.
– Hmm… Morgan…
– Sim?
– Será que eu posso ver as armas que você usa?
– Claro, por que não?

Ela segurou o lanche com a boca, enquanto retirava os anéis de bronze celestial, um de cada mão, e entregava para o garoto. Ele percebeu que as peças eram idênticas nos menores detalhes, e sentia que havia um método de ativá-las. Instintivamente vestiu um dos anéis e esticou a mão, a arma magicamente expandindo-se a partir do anel até preencher toda a mão de Leo. Ele não entendia muito de armas, mas acreditava que aquele era um modelo de Beretta, todo feito em bronze celestial com uma aplicação de mogno na coronha, onde lia-se “Stiria”. Ele repetiu o gesto com o outro anel e as armas seriam perfeitamente iguais se a aplicação na coronha da segunda não fosse cor de marfim. A inscrição dizia “Nix”.

– Minha mestra quem me deu de presente, quando passei no último teste do treinamento dela. Ela mesma fez.
– São incríveis… sua mestra deve ser genial!
– Ela é mesmo. – o filho de Hefesto devolveu os anéis e ela os vestiu nos dedos indicadores, como antes – ela é a semideusa mais talentosa da época dela, provavelmente.
– Ela é uma semideusa também!?
– Sim, ela é uma filha de Hecate como eu.

Ela sorriu, se levantando.

– Boa vigia. Eu vou investigar os arredores e ver o que nos espera.
– Tem certeza que é uma boa ir sozinha?
– Você já viu que eu posso caminhar sem fazer barulho. Sozinha, atraio menos a atenção deles caso estejam nos farejando.
– Certo. Vá com cuidado!
– Pode deixar.

E com isso, ela desceu do convés e se colocou a caminhar colina abaixo, até sumir de vista. Leo voltou a se concentrar na vigia.
Logo os outros semideuses acordariam e ele teria que explicar onde estava Morgan. Mas, talvez mais importante do que aquilo naquele momento era tentar entender de onde vinha a tempestade que se formava ao longe, no horizonte. E tentar entender o que eram aqueles espíritos da natureza aparentemente enfurecidos.

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