A Casa de Hades – Capítulo V – Reyna

Era uma noite escura e quase sem estrelas no céu. No horizonte, uma singela faixa cinzenta deixava claro de que estavam próximos de uma cidade grande, no caso Nova York. Long Island era um local incrivelmente bonito e agradável e mesmo longe do praia era possível sentir um levíssimo aroma de maresia. Fechada dentro da tenda da reunião de guerra, Reyna gostaria de ser capaz de pensar melhor a respeito do que discutiam, mas tinham andado em círculos em diversos assuntos e avançado inutilmente na madrugada até a exaustão. Os batedores retornavam aos poucos, tímidos, decepcionados por uma incursão sem resultados sobre a localização do Acampamento Meio-Sangue. No acampamento formado por tendas perfeitamente homogêneas, de tecido vermelho e dourado, onde estandartes tremulavam imponentemente com o vento marítimo, o espírito que se via nos soldados romanos não era exatamente de imponência ou bravura. Estavam cansados da longa viagem. Mentalmente cansados da longa falta de resultados palpáveis.

Quando os últimos membros do conselho de guerra deixaram a tenda, tudo que Reyna queria era dormir. Ela estava na vanguarda do grupo que atacaria o Acampamento Meio-Sangue, junto com seus melhores semideuses. Contudo, cada resultado negativo dos batedores sobre a localização exata do acampamento fazia com que a Pretora perguntasse a si mesma se a falta de resultados não seria um sinal dos deuses para desistirem daquela incursão movida pela vingança. Ela estava pronta para dormir quando ouviu uma voz conhecida do lado de fora da tenda; Samantha, a última dos batedores a retornar naquela noite.

– Estou de volta, Rey-rey! – a menina sorriu; ela sempre dava apelidos daquele tipo para as pessoas, e teimava em chamar Reyna daquela forma, mesmo não sendo muito apropriado
– Alguma novidade, Sam?
– Na verdade, sim. – a ruiva coçou a nuca, desconfortável – será que podemos conversar em outro lugar? Não confio nesses meninos solares.

A filha de Bellona concordou, seguindo Samantha através da grama fofa e fria da campina até a beira de um rio, onde ela sentou-se para beber água. A filha de Trivia era esguia e elegante, graciosamente coberta por sardas da cabeça aos pés e andava sem produzir nenhum som ou rastro; graças a ela o caminho das tropas era sempre seguro e muitas vezes, mais eficiente. Era a batedora perfeita.

– Eu encontrei o acampamento, mas acredito que é um erro atacá-los sem nem ao menos avisá-los de que estamos chegando.
– Você encontrou o acampamento?! Como?
– Eu sempre encontro o caminho. – ela sorriu confiante, dando de ombros em seguida – e tenho irmãos lá. Os filhos exilados de Hecate ganharam um lar naquele lugar. Eu não posso simplesmente joga-los em outra batalha, eu não tenho esse direito.

Era a primeira vez que Reyna vira Sam tão séria, desde que ela chegara à Nova Roma. Normalmente ela era animada e descontraída e adorava implicar com Término. Agora ela tinha um olhar taciturno e até mesmo solene.

– Então por que não mentiu sobre ter encontrado o acampamento?
– Rey-rey… você sabe que não é do meu feitio. Eu concordo que realmente foi um golpe inesperado o ataque que sofremos do navio deles, mas tenho certeza de que deve haver um motivo racional e conciso sobre isso. A nossa briga confunde os deuses… eles dependem de nós tanto quanto nós deles, e enquanto houver discórdia entre Romanos e Gregos, haverá discórdia entre eles. Você provavelmente não sofre tanto com isso porque é filha de Bellona, mas eu sou filha de Trivia, e não consigo contatá-la desde que isso começou.
– Você fala como aquela Grega filha de Afrodite…
– E eu nem a conheci. Deve ser porque nós duas somos sensatas e sabemos do que estamos falando. – ela suspirou – é sério Rey-rey, eu não posso continuar com isso. Filhos de Apollo vão marchar contra outros filhos de Apollo e parece tudo bem pra eles. Nossa comunidade é nossa família, mas existem outros laços também. Eu não sei o que Octaviam pretende, incitando toda essa discórdia, mas eu manteria meus olhos nele.

Reyna não respondeu à amiga. Ela também discordava de Octavian na maior parte do tempo. Sam se levantou.

– Eu vou embora Rey-rey… eu não posso seguir adiante com vocês.
– V-você vai desertar, Samantha!?
– Vou. – a ruiva deu um sorrisinho triste, a mão sobre a marca SPQR em seu braço esquerdo – mas eu vou te dar um mapa com a localização do acampamento. Caberá a você decidir o que vai fazer a partir de agora ou não. Eu sei exatamente o que eu pretendo fazer a partir daqui.

E com isso, ela deu um abraço em Reyna, entregando-lhe um pergaminho lacrado com cera. Sem delongas, a filha de Bellona assistiu a filha de Trívia seguir por uma colina, até desaparecer atrás dela. “Se fosse tão simples assim, contestar Octavian e impedir essa batalha sem sentido…” ela suspirou, caminhando de volta para sua tenda. Ela poderia enrolar o início da batalha por mais algum tempo, mas não sabia até quando. Alguns semideuses perguntaram por Sam quando ela voltou, e Reyna apenas disse que ela havia “partido de novo”.

Não é como se fosse uma mentira, de qualquer forma.

Ela voltou para sua tenda no acampamento e passou o resto da noite pensando em tudo que Sam tinha dito. De fato, Reyna não confiava em Octavian, tampouco concordava com seus métodos. Quanto mais ela pensava a respeito dos deuses e da confusão entre Gregos e Romanos, mais ela pensava o que Octavian pretendia instigando e acirrando ainda mais a disputa com seus discursos ufanistas. Ela ficava imensamente feliz por não ter que aguentar o filho de Apollo por perto, especialmente porque, como Sam dissera, Octavian parecia obcecado com a disputa contra os Gregos. Ela entendia perfeitamente que ele não tinha gostado de Percy desde que o filho de Poseidon pusera os pés no acampamento, além de ter sido firmemente contra o encontro de Romanos e Gregos. Ela não conseguia deixar de pensar que havia muito mais por trás daquilo, mas ela ainda não sabia dizer o que era. Finalmente, Reyna decidiu dormir.

E que Bellona a ajudasse a aguentar a ida de Octaviam ao destacamento, com muita paciência, no dia seguinte.

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