A Casa de Hades – Capítulo VI – Jason

Jason gostaria de ter dormido mais naquela noite, mas não era hora de pensar em uma coisa daquelas. Leo havia soado o alarme, e todos corriam para o convés.

O vento estava forte e selvagem. Se antes eles haviam se surpreendido com o número de monstros no Monte Pindo, o filho de Zeus tinha motivos para uma nova surpresa: Jason jamais vira tantos espíritos da natureza juntos como via agora. Eles se dirigiam na direção do Argus II com uma expressão não muito amigável, marchando em massa através do declive, armados, gritando, sibilando, chiando e todos os outros sons que eram capazes de emitir. Hazel não demorou a ladea-lo, acompanhado de Piper e Leo. Frank ficara para trás junto com Nico, e o treinador Hedge gritava alguma coisa sobre não ter nem ao menos tempo de usar o banheiro em paz, enquanto corria com um pedaço de papel higiênico preso no casco. Jason teria pensado o quanto ele não precisava daquele look do sátiro quando se focou novamente nos espíritos da natureza.

– Eles estão furiosos, os espíritos da natureza. – Piper estava apreensiva
– Sim mas…. tirando causar uma avalanche na montanha lá trás, o que poderíamos ter feito pra isso?
– Deve ser coisa de Gaia. – Jason empunhou sua espada de ouro imperial, tomando a frente do grupo
– Que seja! Vamos mostrar pra eles quem é que está com a razão com nossos punhos!! – o treinador socou o ar, enérgico
– Achei que Sátiros também pudessem ser considerados um tipo de espírito da natureza…
– Chega mais perto pra eu te mostrar toda a minha espiritualidade natural, Valdez!
– Onde está Morgan? – Hazel olhava para os lados, apreensiva

Jason e os outros encararam Leo.

– Ela saiu. Disse que ia investigar os arredores.
– Saiu?!
– É… qual o problema com isso cara?
– Leo, você não ouviu nada do que dissemos sobre os filhos de Hecate na guerra de Chronos?
– Ouvi, mas achei que já tivéssemos saído dessa fase com ela.
– Decidimos que confiaríamos nela, Jason. – Frank gritou, lá do fundo do convés
– Mais importante do que isso, o que faremos sobre eles?

Os espíritos da natureza estavam cada vez mais perto. O treinador Hedge parecia estar mentalmente entretido pensando em como enfrentaria aqueles espíritos com seu taco de beisebol.

– Cara, – Leo começou, encarando Jason – acho que talvez precisemos pensar em como fugir feito garotinhas, porque enfrentar todos esses espíritos não vai dar.
– Faça isso se quiser Valdez, mas um homem sabe que deve morrer lutando! – o treinador emergiu de seus pensamentos momentaneamente.
– Ah, fala sério! Não viemos tão longe pra isso!

Enquanto Jason pensava sobre como proceder, foi surpreendido por Piper, que tomara a liderança do grupo. Ao longe era possível perceber que os espíritos eram liderados por uma Náiade muito bonita, seguida por algumas outras náiades de peles azuladas e cabelos coloridos. Ninfas e Dríades vinham logo atrás, seguidas por Ventus, Silfos e alguns outros espíritos que Jason nunca nem tinha ouvido falar sobre. A Náiade fez um sinal e os outros espíritos pararam de andar; seu vestido diáfano em tons claros e alegres ondulava suavemente, como ondas num lago, conforme ela caminhava até ficar frente a frente com Piper. Com a sua presença e a dos outros espíritos, alguns aromas do ambiente como o de árvores, plantas, flores, água fresca e terra pareceram intensificar. Se não fosse a tempestade que chegava com eles, ocultando a luz do sol e ocultando o céu, seria possível dizer que a natureza parecia ainda mais natural com a presença dos espíritos. E mais selvagem também.

– Partam imediatamente deste lugar.
– Receio não poder. – Piper tentava soar firme, mas Jason percebia o nervosismo da menina – Desculpe, mas nós fizemos alguma coisa errada?
– Os filhos do senhor do Submundo não são bem-vindos aqui… sua energia não é boa.

Leo pareceu aliviado com algo, suspirando alto e levando a mão ao peito. Jason pensou que até aquele momento o rapaz estava encanado com a avalanche que tinham causado para despistar seus perseguidores.

– As tropas da mãe da terra estão por toda a parte, nós decidimos nos manter longe dessa batalha de vocês. A presença de vocês só vai trazer ainda mais dor para todos aqui.

A tempestade desabou de uma vez só dos céus, na forma de uma chuva constante e lacônica. Os semideuses permaneceram estáticos em suas posições. Piper engoliu a seco. Eles entendiam um pouco mais agora sobre como suas ações poderiam influenciar diversas pessoas, criaturas e espíritos em verdadeiros efeitos dominó. Jason ainda estava desconcertado pelo episódio que passara com Piper e Percy dentro do fosso de água morta e sem vida, do tipo que nem o filho de Poseidon tinha poder sobre. Mesmo entendendo tudo aquilo, mesmo sabendo que suas ações os impactariam de maneira irreversível, para o bem ou para o mal, o filho de Júpiter decidiu ser firme naquele momento.

– Precisamos salvar nossos amigos e impedir que Gaia retorne! Não podemos sair daqui até conseguirmos isso.

Os olhos da Náiade brilharam, perigosos; os ventos mudaram de direção abruptamente e diversos espíritos mexeram-se, claramente desconfortáveis com a atitude de Jason. Pelo visto, ninguém se atrevia a interromper os assuntos daquela Náiade.

– Petulante como todo filho de Zeus. Eu não estava me dirigindo a você, menino, mas eu estou disposta a negociar. Eis nossos termos: partam em paz antes até amanhã ou nós os arrancaremos daqui à força.

Com isto, ela se virou e atravessou a multidão de espíritos da natureza até estar do outro lado do grupo, marchando rumo à descida da encosta. Trovões ribombaram violentamente no céu, e uma pesada chuva começou a cair. Jason sentia que tinha estragado tudo.
Pouco depois do ocorrido, Jason avistou Morgan retornando ao acampamento; ela tinha vestido o manto de veludo negro e coberto a cabeça com o capuz para se proteger da chuva, mas agora ela andava pesado e devagar, provavelmente por causa do peso do tecido molhado. Se ela reparou nas pegadas que agora a chuva começava a levar, ela não comentou nada. Passado o choque, Leo começou a mobilizar o grupo para consertarem o convés o mais rápido possível, já que tecnicamente teriam apenas até o dia seguinte. Jason tentava amenizar a tempestade para ajudar nos reparos, mas os espíritos estavam muito inquietos e descontentes, era impossível comandá-los naquela situação.

Mas o filho de Júpiter tinha uma péssima impressão sobre o retorno de Morgan, imediatamente depois da retirada dos espíritos. Ele não confiava na filha de Hecate, ainda mais com aquele excesso de sorrisos e conversas sobre o Argus II com Leo, sempre querendo saber mais e mais sobre o navio voador. Hazel e Frank pareciam aceitar a situação bem mais fácil do que ele, e Jason temia que isso pudesse ser algum efeito mágico causado por ela. No campo de batalha ele vira filhos de Hecate fazerem muitas coisas que ele acreditava serem impossíveis para semideuses até então, logo ele ficava inseguro com a presença da atiradora. Ele foi tirado de seus pensamentos por um chamado vindo do convés:

– Grace!
– O que?
– Precisamos de uma mão sua aqui embaixo. A chuva não vai diminuir tão cedo pelo visto, então é melhor nos concentrarmos em consertar o convés logo.
– Por que você não tenta fazer alguma coisa a respeito da chuva então? – Jason bufou, irritado, molhado e com frio
– Desculpe?
– O que é uma magia pra afastar a chuva pra quem disse que ergueria proteções mágicas sobre o acampamento?

A filha de Hecate não levou um soco, mas deslocou o maxilar para o lado como se tivesse. Ela se levantou e caminhou até ficar de frente para Jason, encarando firmemente.

– Que foi Grace? Tá nervosinho porque não consegue nem fazer uma garoinha dessas parar de cair?
– Provavelmente não tanto quanto você quando não conseguiu proteger “os traseiros mágicos” dos seus irmãos no Rainha Andrômeda. E ainda diz que vai proteger o acampamento… que piada.

Ainda assim, Jason não esperava levar um tiro no meio do peito, como o que ele recebeu em seguida. Mas talvez ele devesse ter esperado.

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