A Casa de Hades – Capitulo VII – Morgan

Horas antes, quando Morgan tinha saído para verificar quais pontos utilizaria na barreira mágica do acampamento, ela percebeu uma perturbação anormal na direção do vento. Se ela ainda se lembrava bem de seus treinos com sua mestra, aquilo significava que os espíritos da natureza estavam se movendo, embora ela não soubesse para onde ou para quê. Quando ela voltou para o acampamento os ânimos não eram os melhores, mas também pudera, com aquela tempestade toda caindo sem parar. Ela achou melhor não fazer perguntas desnecessárias, e quando Leo pediu a todos que ajudassem a consertar o convés, ela o fez sem questionar a pressa repentina.

E agora ela estava com sua espingarda de cano cerrado com a munição não letal de borracha apontada na direção do rosto de Jason Grace, o pretor bully, exigindo que ele retirasse as ofensas contra seus irmãos naquele instante, ou ela estaria disposta a colocar “não letal” à prova, com tiros a queima roupa.

– Peça desculpas pela merda que você disse Grace, ou eu atiro até você se arrepender!
– Acalmem-se vocês dois! – Piper correu, utilizando todo o charme que conseguia concentrar naquela hora.

Morgan hesitou e sentiu dois pares de mãos a afastando de Jason; Leo e Frank haviam corrido ao mesmo tempo que Piper. Naquele momento, não havia expressão melhor para “sangue nos olhos” do que a filha de Hecate, com os olhos verdes faiscando de raiva; ela não se agitou quando Frank e Leo a carregaram alguns poucos metros para longe de Jason, tentando controlar a própria respiração e se acalmar. Ela sabia que não podia cair nas provocações de Jason, ainda mais em um momento tão importante da missão. Eles não podiam chamar ainda mais a atenção dos monstros, embora a chuva os ajudasse nesse sentido. Ela estava lá para ajudar Nico, como havia prometido que faria, e sabia que não podia ser a pessoa a estragar tudo. Mas ainda assim, ela sentia uma vontade incontrolável de colocar Jason em seu devido lugar.

– Eu esperava que vocês dois soubessem que não é hora pra isso! – Piper prosseguiu, encarando Morgan e Jason alternadamente – precisamos consertar logo esse convés e colocar o navio no ar antes que tenhamos que lidar com uma legião de espíritos da natureza enfurecidos! Se vocês não vão nos ajudar, pelo menos não nos atrapalhem!

As palavras de Piper faziam com que Morgan começasse a se acalmar e pensar com mais razão. Realmente, não havia tempo algum a dispensar com tais trivialidades. Ela se levantou, respirando fundo, dando de cara com o olhar apreensivo de Nico. Ela sentiu uma pontada de vergonha encarando o olhar de Nico, imaginando que um simples pedido de desculpas talvez não fosse o bastante.

– Di Angelo, olha…

– Eu sabia desde o início que era uma péssima ideia ela vir conosco! Ela é uma traidora como todos os irmãos dela, vocês são os únicos que não percebem!!

– Desculpa… desculpa mesmo. Você não merecia isso. – ela suspirou, pegando a espingarda de novo

Jason ainda se recuperava do tiro, segurando o peito, quando Morgan correu em sua direção e o atingiu com a coronha da espingarda no flanco esquerdo, fazendo o filho de Júpiter recuar. Em resposta, ele invocou sua espada de Ouro Imperial, desferindo um ataque que por muito pouco ela conseguiu aparar com o cano da arma.

A chuva caía ainda mais pesada do que antes, dificultando os movimentos de ambos lutadores. Desceram do convés, chapinhando na lama sob os olhares apreensivos dos outros semideuses, que não sabiam como intervir. Morgan movia-se com mais velocidade do que Jason, mas encontrava poucas brechas para atirar no semideus, que por sua vez atacava com habilidade e precisão, quase acertando-a por pouco em diversos momentos. Ela engatilhava a arma quando sentiu uma lufada de vento estourar em seu peito, forçando-a a deslizar na lama alguns metros para trás. Agora que seus sentidos de combate estavam mais alertas, ela pensava que não tinha sido uma boa ideia atacar um filho de Júpiter no meio de uma tempestade com raios e ventos fortíssimos. Mas ela estava decidida a derrubá-lo de qualquer maneira, e o faria sob qualquer circunstância. Determinação recuperada, a filha de Hecate firmou os coturnos na lama e disparou quatro tiros contra Jason, acertando dois. Precisão não era o que se podia esperar de balas de borracha na chuva, mas ela ainda não estava tentando matar ninguém. Saltou, desviando de um golpe e pousou sobre uma rocha próxima, arma recarregada e pronta para mais uma saraivada de tiros. Os dois atingiram Jason na mesma perna, fazendo o garoto ajoelhar momentaneamente. Outro gesto do filho de Júpiter e Morgan foi atingida de resvalo por um raio, despencando no chão com a sensação horrível de eletricidade cruzando seus músculos, nervos e veias. Sua espingarda estava longe demais para alcançar esticando a mão, e esse gesto ainda era doloroso no momento. Morgan percebeu a aproximação de Jason, provavelmente para declarar aquele combate encerrado, mas ela ainda não tinha terminado. Seus músculos ainda protestavam, mas ela ignorou a dor, atirando lama no rosto de Jason com um gesto rápido e preciso. Rolou no chão até alcançar a espingarda e recarregou a arma.

– Eu devia imaginar que uma luta limpa seria impossível para você, LeFey!

– Não tenho argumentos contra isso. – ela circundou Jason, que ainda limpava o rosto – existem coisas pelas quais eu lutaria até o fim, usando qualquer recurso à minha disposição.

Ela engatilhou a arma e esperou Jason se virar para então desferir quatro tiros no tronco do rapaz, fazendo-o recuar alguns metros. A dor era visível em seu rosto.

– Eu posso suportar qualquer ofensa contra mim, eu não me importo. Quer me chamar de traidora? Vá em frente. Quer zombar de meus poderes? Pega uma senha e entra na fila, porque eu definitivamente não sou o membro mais proeminente da minha família nesses termos. Mas ouse dizer qualquer coisa sobre meus irmãos que caíram em combate e vou me certificar de que nem Néctar possa consertar o estrago que eu vou causar.
– Já acabou?

– Já.

Ele se endireitou, partindo para mais uma troca de golpes. Morgan enfiou a mão no bolso, em busca de mais balas para a espingarda, mas tinha usado todas. Reprimindo-se mentalmente por não sair com mais munição não letal à disposição, amparou os golpes com o cano da arma, deslizando pela lama para trás de Jason, sem protestar quando sentiu a espada do garoto abrir um talho em sua coxa direita. Observou o ferimento brevemente, decidindo que não era tão grave quanto dolorido, mesmo sabendo que sua mobilidade estava acabada com aquilo. Jason virou-se para ficar de frente para Morgan no momento em que ela correu de encontro ao rapaz, aproveitando-se de uma brecha em sua guarda para atingi-lo com uma cabeçada violenta no nariz. Jason recuou até cair para trás. Morgan caiu de joelhos onde estava, a dor lancinante na coxa fazendo-a ver estrelas em complemento a cabeçada. A luta estava terminada.

Morgan podia ouvir a mobilização dos outros semideuses para ajuda-los, descendo do Argus II. Ela segurava a própria fronte, ainda tonta por causa do impacto contra o nariz de Jason e agora o frio da chuva começava a lhe fazer tremer. De esguelha percebeu Frank e Piper ajudando Jason, mas deixou de se concentrar nisso quando percebeu Leo abaixar-se ao seu lado.

– Consegue ficar de pé?

– Provavelmente. – com a ajuda de Leo ela conseguia ir mancando até o navio – Valdez…

– Olha, não precisa se desculpar por nada. – ele abaixou o tom de voz – Jason passou da conta.

– Eu não ia me desculpar por isso. – ela riu da expressão que Leo fez – ia dizer para me dar alguns minutos até eu voltar a ajudar a consertar o convés. Se nos atrasarmos, a culpa vai ser minha.

– Se você puder fazer contra os espíritos da natureza metade do que fez contra o Jason acho que podemos ter uma chance.

– Se eu puder erguer a barreira mágica eles podem se esquecer de que estamos aqui. – ela fez uma careta quando pousou o pé direito no chão – Festus nos trouxe para um ponto mágico muito rico.

– Rico? Por quê? Eu só vejo mar e montanha por todos os lados.

– Exatamente por isso. E hoje a noite será de lua minguante. A terra representa o submundo, e então temos o mar e a lua… os três aspectos de minha mãe.

– E isso é…. bom?

– Isso é excelente! – ela sorriu, os olhos brilhando – vai me poupar muita energia. E não é como se eu tivesse muito que desperdiçar agora.

– Percebi. – ele pegou um pedaço de ambrosia e entregou para a menina – come isso, e depois joga um pouco de néctar em cima desse corte, que acho que eu to conseguindo ver seu fêmur.

– Que exagero. – ela comeu um pedaço da ambrosia; tinha gosto de bolo de maçã com canela, recém-saído do forno, fazendo com que ela se sentisse mais aquecida instantaneamente – um corte à toa só.

Ela puxou uma flanela do short e embebeu com néctar, colocando sobre a ferida. Mordeu o lábio inferior, suprimindo a vontade de resmungar de dor, encolhendo-se sobre o machucado. Soltou um suspiro longo, pensando na tarefa que seria circular todo o terreno acidentado de antes com uma perna ferida, mas não se deixou abater. Estava na hora de mostrar a que tinha vindo.

 

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