Casa de Hades – Capítulo VIII – Nico

Poucas coisas haviam deixado Nico sem fôlego em sua vida; a morte de Bianca, ficar preso dentro de uma ânfora por uma semana e agora ele podia acrescentar à lista em formação: “presenciar uma luta entre dois semideuses no meio de uma tempestade”. Um misto de admiração e apreensão tomaram conta do menino quando Morgan partira para cima de Jason com todas as suas forças, olhos fixos no filho de Júpiter como os olhos de um predador. Curiosamente aquela Morgan lhe lembrava muito pouco da Morgan que conhecera e ajudara a combater na Grand Central Station, muitos meses antes, mas ele não tinha dúvidas de que poderia confiar fortemente em alguém que defendia suas causas com tamanho empenho e ferocidade.

Ela conversava com Leo agora, e cuidava do machucado na perna, sentada no convés do Argus II. Nico tinha recuperado a espingarda de cano cerrado da filha de Hecate e agora se dirigia até a dupla, para devolvê-la. Morgan balançava-se, sentada, provavelmente tentando espantar a dor, mas incrivelmente conseguiu sorrir quando percebeu Nico por perto, exatamente da maneira que a vira sorrir diversas vezes antes.

– Hey, Nico…
– Relaxa Morgan. – ele estendeu a espingarda – não precisa se desculpar, Jason passou do limite.
– Hm, obrigada. – ela pegou a espingarda, devolvendo ao coldre no cinto – e eu não pretendia pedir desculpas por nada. Eu não acredito ter feito algo errado enfrentando Jason.
– Ah. – ele ficou surpreso com a resposta – então, o que ia dizer?
– Vou precisar de ajuda pra voltar aos pontos que marquei para erguer a barreira mágica. Ela vai nos ajudar contra os espíritos da natureza que vocês falaram, por isso não posso esperar ficar melhor pra ir. Se importa de me ajudar?
– Você não vai ficar como naquela vez, na sua casa, vai?
– Prometo que não.
– Que vez? – Leo ergueu uma sobrancelha – você já esteve na casa dela? Caramba Nico, olhando pra você ninguém diz que é capaz dessas coisas.
– “Dessas coisas”? – Nico ergueu uma sobrancelha
– Encurtando uma história longa, sim. – Morgan franziu a testa, revirando os olhos – Foi onde invoquei as proteções para Nico atravessar o Tártaro.

Ela tocou no braço de Nico, e os símbolos que ela mesma desenhara meses antes se acenderam com um brilho azulado tênue que a fez sorrir; Nico se arrepiou com o toque gelado dos dedos de Morgan, lembrando-se do momento em que os símbolos tinham sido desenhados com cuidado, perícia e tinta gelada.

– E aí estão eles, ainda. – ela pareceu ficar sinceramente feliz – temos uma vantagem boa sem que os monstros possam nos farejar enquanto eu faço o encantamento, isso é realmente ótimo.
– Ótimo é bom pelo que eu entendo. – Leo segurou o braço de Nico, observando os símbolos – tá que não entendi nada disso mas…
– Somos dois. – Nico suspirou, dando de ombros – quando vamos?
– Assim que eu enfaixar isso daqui.

Ela enrolou uma faixa em torno do ferimento, cujo sangramento já cessara e se levantou evitando a ajuda de Leo e Nico, provavelmente querendo mostrar que estava bem para pelo menos andar sozinha. O filho de Hades encarou o Almirante Valdez uma última vez antes de descer do convés através da rampa, ladeado por Morgan, que parecia preocupada com coisas demais. No caminho a jovem recuperou seu manto de veludo encharcado.

O garoto não tinha percebido antes como o terreno era instável e acidentado, carregado de pedras soltas, áreas extremamente escorregadias e vegetação rasteira e de aparência judiada. Não que a tempestade caindo ajudasse a melhorar a visão do ambiente. Pelo contrário; era quase impossível enxergar claramente além de 4 metros em qualquer direção. Todo barulho produzido pela ventania e trovões, além da própria chuva, tornava comunicação vocal uma tarefa extenuante e exaustiva para a voz. Felizmente naquele contexto, Morgan era uma pessoa sinestésica, de toques e gestos expressivos.
Ainda assim ele percebeu que a jovem estava anormalmente calada, embora não fizesse muita ideia de seus motivos. Ela fez duas ou três observações sobre o caminho na chuva com puxões delicados ou toques no braço do menino, indicando locais seguros para pisar ou a direção certa a se tomar no meio do temporal, o que era bem útil já que Nico não fazia ideia de para onde estavam indo. Caminharam pela região montanhosa por mais algum tempo até que ela parou de frente para aparentemente nada de especial e começou a desenhar um pequeno círculo mágico numa pedra no chão, com giz de cera branco. O símbolo era muito complicado para que Nico se recordasse dele com detalhes mais tarde, mas envolvia diversos círculos, letras gregas, símbolos que o rapaz não conhecia (embora acreditasse que faziam parte da Alquimia) e outras coisas mais. Quando finalmente terminou o desenho ela pegou um punhado de terra e o colocou dentro de um potinho fechado com uma rolha, depositando-o sobre o símbolo correspondente, repetindo o processo com um cantil, de onde despejou um pouco de água também dentro de um potinho com rolha. O símbolo restante era o de uma lua nova, e Nico se perguntava o que ela tiraria do bolso a seguir.

– Vamos para o próximo.
– Ah, como assim você não vai tirar um pedaço da lua do bolso e colocar aí?
– Sabe como é, estava em falta em todos os fornecedores. – ela riu-se – eu já tinha explicado pro Valdez, mas como você perdeu essa parte eu digo de novo. A Terra representa o Submundo, a água salgada o mar. A lua nova representa minha mãe, e não preciso colocar nada ali por que…
– Porque hoje é noite de lua nova.
– Bingo! Então, ao invés de gastar a minha energia com isso, vou usar os símbolos da minha mãe como catalisadores de magia para ativar a barreira.
– Resumindo: você não vai desmaiar e eu não vou ter que voltar até o acampamento te carregando.
– … entre outras coisas. É isso.
– De quantos pontos precisamos pra ativar a barreira?
– Sete, contando com esse.

Prosseguiram, Nico sempre seguindo Morgan. O garoto estava atento tanto para possíveis ameaças de monstros quanto para impedir que Morgan caísse com os deslizes que levava das pedras molhadas. Ela não disse, mas estava visivelmente irritada com a perna machucada, praguejando baixinho sempre que pisava em falso ou tropeçava. A segunda e terceira marcações transcorreram sem problemas como a primeira. No caminho para a quarta marcação a chuva se intensificou e o filho de Hades percebeu que a respiração de sua companheira ficou mais pesada do que antes. Ele observou apreensivo, quando ela se apoiou numa rocha, demorando a retomar o fôlego; a perna machucada tremia levemente.

– Vamos parar e descansar um pouco.
– Essa foi a melhor sugestão do dia, até agora.

Encontram uma pequena gruta onde podiam se abrigar da chuva e do vento razoavelmente bem. Ali mesmo conseguiram encontrar alguns galhos e folhas secos, mais do que o suficiente para uma pequena fogueira. Algumas tentativas frustradas e dedos com farpas depois e Nico conseguiu acender o fogo, interpondo-se entre ele e o vento para que a chama não apagasse. Morgan torceu o manto de veludo ensopado como podia, estendendo-o no chão para secar tanto quanto fosse possível. Ela permaneceu calada, apoiando o cotovelo no joelho da perna boa, sustentando o queixo na palma da mão, observando a chuva do lado de fora despreocupadamente; olheiras formavam-se sob seus olhos e o cansaço da luta e da caminhada eram visíveis em seu rosto.

– Então… – Nico não parecia saber o que dizer – como funciona aquela magia que te trouxe até aqui?

Morgan pareceu pega de surpresa. Ela encarou o menino com seus olhos verdes, a expressão neutra, até que finalmente abriu um sorrisinho, deixando o aspecto cansado de lado.

– Aquilo é um feitiço de invocação passiva básico. Chamamos de Committo Amicus, trazer o amigo.
– É uma coisa realmente útil. – ele se ajeitou no chão, curioso – Os filhos de Hecate podem fazer feitiços pra qualquer coisa?
– Em teoria. – ela deu de ombros – Feitiços, rituais, invocações e amuletos. A munição que uso em minhas armas, por exemplo, é um tipo de condensação de feitiço.
– Isso eu tinha achado incrível desde que enfrentamos aquele careca juntos no Central Park. Eu nunca pensei num mago usando armas de fogo, como você. – ele estava genuinamente animado
– Ah… isso não é nada. – ela corou um pouco – na verdade eu só aperfeiçoei a condensação de feitiços em um método melhor pra mim. Até atirar eu aprendi com a minha irmã. Se ela fosse uma carta de Mitomagia, ela com certeza seria uma versão de saias do Roderick Bannon.
– A carta dele tem uma das maiores somas de pontos totais e acho que é a única que combina Magia e Destreza nos valores máximos. É uma carta muito roubada! – ele ficou pensativo – Titânia já me dava medo antes, agora então…
– Sabe… quem costuma dizer que ela é roubada é com certeza quem já perdeu pra ela uma vez. Tipo no abraço do Troll. – ela tinha um sorrisinho maroto no rosto

Eles gargalharam juntos, prosseguindo com a conversa, que era ótima; falaram sobre as coleções passadas de Mitomagia e ela não pestanejava em explicar sobre as melhores cartas (em sua opinião) das coleções mais novas. Lá fora a tempestade lentamente diminuía para uma chuva constante, o céu clareando consideravelmente. Morgan tirou o pó do short quando se levantou.

– Acho que podemos continuar agora.
– Tem certeza?
– Tenho. Além do mais, com o céu carregado desse jeito eu perdi totalmente a noção do tempo. Quero terminar isso antes da lua nova estar no seu ápice.
– Tudo bem. Com a chuva mais fraca não deve ser difícil.

Retomaram o caminho sem nenhum problema. Com o céu um pouco mais claro e a chuva menos feroz era possível perceber melhor o caminho por onde andavam diminuindo consideravelmente a incidência de escorregões por parte de Morgan. Mas diminuição da chuva também parecia ter atraído outras criaturas para fora de suas tocas; durante a caminhada até a quarta marcação Nico vigiava o caminho atrás da dupla quando deu com o nariz nas costas de Morgan, que estava num patamar mais alto da ladeira que subiam. Ela recuou e o garoto foi puxado pela moça até um pequeno vão entre rochas, fazendo sinal para que ele ficasse quieto. Um par de quimeras passou na direção contrária, farejando como se procurassem pistas de algo (ou alguém) na chuva. As criaturas demoraram para ir embora e mesmo depois disso os semideuses ainda permaneceram algum tempo quietos na fenda, esperando para sair.

– Se eu não soubesse, poderia até dizer que esses monstros não querem nos deixar sozinhos. – Morgan deu um sorrisinho misterioso
– É-é… – Nico corou, só então percebendo o quão estavam próximos. A regata da filha de Hecate tinha cheiro de amaciante de roupas e desodorante – precisamos nos apressar.
– Ainda mais do que antes. Deve haver monstros por todos os lados nos procurando desde que derrubamos aquele paredão da montanha na cabeça deles.

O filho de Hades concordou, silenciosamente. Apressando ainda mais o passo, o caminho até a quarta marcação passou como um borrão para o garoto seguindo Morgan. Pulavam por cima de rochas, pequenos riachos formados entre as pedras pela chuva e troncos esqueléticos de árvores secas. Recuperando a noção espacial com a chuva mais fraca o garoto percebeu que estavam circulando toda a área em torno do Argus II e por isso mesmo foi capaz de presumir corretamente que a última marcação ficaria na encosta de um vale rochoso. Quando finalmente chegaram até a beira do vale Nico perdeu o fôlego com a vista do lugar; mesmo com o céu acinzentado e ainda obscurecido pela recente tempestade era possível ver com clareza toda a região no fundo do vale: um campo salpicado por árvores baixas se estendia por toda a encosta oposta do vale. Uma cachoeira jorrava água no rio que seguia para o mar, formando um bolsão de água cristalina e limpa em sua base. As margens do rio eram ricas em grama verde e alta, além de árvores como as vistas na encosta. Nico sentiu um toque em seu ombro. Morgan lhe entregou uma corda. O garoto percebeu que ela estava amarrada na cintura da moça, e dava duas voltas numa árvore próxima.

– Você vai precisar me descer.
– Tem certeza disso?
– Não. – ela sorriu, iniciando a descida

Não demorou para que Nico perdesse o topo da cabeça de Morgan de vista conforme ela descia o paredão da encosta. Ele ia liberando mais e mais corda para a moça até ouvi-la exclamar que já estava no ponto certo. Era difícil segurar a corda molhada da maneira como ela estava, mas a árvore oferecia um bom apoio em favor do menino, além de Morgan não ser tão pesada.

Contudo, durante a marcação, Nico avistou ao longe um par de quimeras; para o menino não importava se eram as mesmas de antes ou não, aquilo era ruim de qualquer forma. Não havia uma maneira de ele chamar a atenção de Morgan sem chamar a atenção dos monstros. Na verdade, enquanto ele pensava no que fazer, as quimeras já tinham percebido o garoto e corriam em sua direção.

– Morgan!!
– Eu?
– Ainda falta muito aí?
– Ainda estou desenhando o círculo. Problemas?
– Não tenha pressa então.

Ele amarrou a corda que segurava Morgan na árvore, empunhando sua espada de ferro estige em seguida e convocando dois soldados esqueletos para ajudá-lo contra as quimeras que rugiam ferozmente. Era hora de combatê-las.

———————–

Obs: E depois do capítulo com o maior número de piadas internas do mundo (entre Morgan e Nico) eu gostaria de anunciar que excepcionalmente nas próximas semanas teremos o especial “De Nova York à Detroit” para explicar como essas pessoinhas tão distintas se conheceram, dividido em 5 partes! Após esse período, voltaremos com nossa programação habitual ^^

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