Como Nico conheceu Morgan – Pt. I

De Nova York à Toledo
Nova York, Albany Station, 20h

Nico di Angelo emergiu de uma sombra na estação. O fluxo de mortais não era grande naquela parte do terminal de trens, então ele não estava preocupado se havia sido visto ou não. Desde que ele havia começado sua busca pelas Portas da Morte, alguns meses antes, de tempos em tempos o garoto retornava ao mundo humano para descansar um pouco de sua missão solitária. O tempo passava e ele começava a ficar sem absolutamente nenhuma ideia dos locais onde poderia procurar, o que o deixava preocupado. Havia poucos lugares onde ele ainda não havia buscado e as opções restantes não eram animadoras.

Ele se encaminhava para a saída da estação quando, por cima das conversas das pessoas, passos indo e vindo, rodinhas de malas rodando pelo piso e anúncios nos autofalantes sobre os horários, chegas e partidas dos trens, ele teve a impressão de ouvir uma melodia. Começou baixa e meio tímida, mas começou a ganhar volume gradativamente, conforme o rapaz aproximava-se da fonte para ver o que grande parte da estação havia parado para ver também. Ali, com um violão cor de mogno pendurado numa bandoleira, uma menina se apresentava, o estojo do violão aberto no chão, provavelmente para receber gorjetas. Quando ela começou a cantar, era como ouvir a voz das próprias ninfas, doce e suave, mas havia uma nota profunda de melancolia nas pausas da música. Os cabelos pretos e brilhantes estavam soltos por baixo da boina de lã, e algumas mechas caíam-lhe sobre os ombros conforme ela se movia. Um casaco preto, também de lã, escorregava um pouco de um dos ombros, ficando mais baixo que o outro lado, junto com as mangas que por pouco não lhe cobriam os dedos, conferindo-lhe um charme assimétrico e descuidado, reforçado pelos coturnos surrados e o cachecol comprido. Enfim, quando a música terminou, ela fez uma mesura rápida, quase perdendo os óculos prateados de aro fino, rapidamente ajeitando-o com uma das mãos. Seu talento fora largamente recompensado pelas pessoas, que logo voltaram às suas rotinas, como se aquela música jamais tivesse passado-lhes pelos ouvidos, mas aquilo não pareceu incomodar a menina, que se colocara a arrumar suas coisas. Nico estava atônito, o único que não saíra de seu lugar ainda.

(Nota da Ghostie: Se quiser saber a música que Morgan estava tocando nessa hora, clique nesse link)
A jovem voltou seu olhar para Nico, as mãos terminando de arrumar seus pertences; tinha olhos verdes, mas não como os olhos de Percy, que eram capazes de lembrar as pessoas do mar, em seus melhores momentos; seus olhos pareciam ter um brilho amarelado, quase felino, além de serem mais atentos e altivos. Ela deu um sorrisinho amistoso para o filho de Hades, ajeitando as bolsas no ombro e colocando-se a andar depois, sumindo no meio da multidão. O menino foi tirado de seus pensamentos quando ouviu a chamada para seu trem, com destino a Detroit. Nico estava indo até a cidade investigar uma possível pista sobre as Portas da Morte; o caminho até o local era longo e ele decidira poupar as forças da Sra. O’Leary para um momento em que a viagem através das sombras fosse mais necessária e vital. Tirando o problema óbvio de ter que se esquivar de perguntas sobre seus pais (ou acompanhantes) o tempo todo, o garoto gostava de viajar de trem. Na verdade, trens eram uma das únicas constantes de seus primeiros anos de vida até o tempo atual e aquilo lhe trazia um certo conforto. Todo o resto tinha mudado de maneiras irreversíveis e colossais e embora tivessem facilitado muitas coisas em muitos termos, deixavam no menino um sentimento de nostalgia muito forte.

O embarque aconteceu sem problemas com ele menino tentando passar o mais despercebido possível. Encontrou rápido o assento indicado na passagem. Tinha escolhido um lugar ao lado da janela para poder ficar de olho na paisagem. Ao seu lado acomodou-se uma simpática velhinha vestindo um casaco roxo. Ela pediu ajuda para colocar sua mala no bagageiro sobre os bancos e em seguida acomodou-se no assento do corredor, abrindo um livro de capa marrom e surrada, sem pronunciar nada além de um agradecimento pela ajuda com a mala. Passado algum tempo, notou um vulto escuro no canto do olho e percebeu que se tratava da moça que tinha visto tocar violão na estação. Desajeitada, ela guardou as malas no bagageiro sobre os assentos, mantendo a mochila preta surrada no banco ao seu lado enquanto tirava os coturnos. Com isso, reclinou seu banco e apoiou os pés no assento da frente, tamborilando os dedos no batente da janela, provavelmente no ritmo da música que ouvia nos fones de ouvido. O garoto pensou que aquele jeito despreocupado combinava com a menina. “Só espero” ele pensava “que não aconteça nada de anormal com esse trem até Detroit. Odiaria envolver uma mortal como ela em alguma coisa perigosa”.

A viagem transcorria devagar. Além do trem circular em velocidade reduzida em vários trechos da linha, a paisagem homogênea só reforçava a impressão de não estar saindo do lugar, embora, segundo o relógio, ele estivesse sentado há pouco mais de duas horas. A senhora que estivera lendo até então guardou o livro e se levantou, dando batitinhas gentis nas costas, provavelmente dolorida por ficar parada todo aquele tempo.

Começando a ficar com fome, Nico aproveitou a ausência de sua companheira de assento para pegar sua mochila no bagageiro, onde tinha alguns salgadinhos e outras coisas para quando a fome chegasse. Deixou de lado o pequeno embrulho com Ambrosia e o cantil com Nectar, finalmente alcançando o pacote de Cheetos, que inexplicavelmente tinha ido parar no fundo da mochila. Foi aí que ouviu uma voz familiar.

– Hmm, oi.

A cantora da estação estava de pé no corredor com uma pequena garrafa térmica em uma mão e um pote na outra. Ele não tinha reparado até então, mas ela tinha dois bonitos anéis de bronze, um em cada dedo indicador. Ela sorriu, afastando o cabelo do rosto com a mão que segurava a garrafa térmica.

– Você estava mais cedo lá na estação enquanto eu cantava, não estava?
– Sim. – ele ficou feliz em perceber que tinha sido notado (e lembrado!)
– Ufa, então não me enganei! – ela alargou o sorriso, formando covinhas nas bochechas – você aceita brownie? Minha irmã mais velha fez um montão pra minha viagem, eu não vou conseguir comer metade disso até o final dela. Fora que comer sozinha é bem chato.
– Acho que eu posso fazer esse sacrifício pra te ajudar.
– Que bravo de sua parte. – ela riu, estendendo o pote com os brownies

Ela se sentou no apoio da poltrona do outro lado do corredor, apoiando os pés na beira do assento da senhora que estivera ao lado do Nico minutos antes, destampando a garrafa térmica e despejando parte do conteúdo numa caneca prontamente retirada de sua mochila. O cheiro de café se espalhou pelo vagão, a fumaça cafeinada erguendo-se preguiçosamente da caneca. Ela estendeu uma para Nico e encheu uma segunda, embaçando os óculos quando foi beber o café. Nico riu involuntariamente, já imaginando que aquilo aconteceria.

– Aqui, pega isso. – ele tirou um lenço de dentro do casaco de aviador
– Obrigada. – ela limpou o vapor das lentes, voltando a vestir o óculos em seguida – Mas, uau. Um lenço no bolso? Isso é tão oldschool e inesperado.
– Bom… – o filho de Hades ficou visivelmente sem jeito, pensando no que dizer, mas foi interrompido
– Só pra constar, foi um elogio.

Deixar de ficar envergonhado foi impossível naquele momento.

– A propósito, meu nome é Morgan. – ela sorriu, mordendo um pedaço de brownie – só pra você não dizer que comeu num trem com uma desconhecida maluca qualquer.
– Me chamo Nico. E não acho que você seja maluca por sair dividindo brownies com pessoas que nem conhece por aí.
– Você tem razão… maluca é minha irmã, que me deu todos esses brownies pra uma viagem curta.

Eles riram em uníssono. Instantes depois a senhora retornava pelo corredor. Morgan endireitou-se, dando passagem para a mulher e voltando para seu lugar. Nico apontou o pote, ainda pela metade, mas a moça fez um gesto displicente com a mão, como se dissesse “depois você se preocupa com isso”. Naquele momento, a perspectiva de haver um depois parecia animadora.

Algum tempo depois, finalmente chegaram na estação Erie, da Pensilvânia. O trem faria uma parada de 15 minutos e então recomeçaria a viagem. Nico sentia-se cansado por não ter muito o que fazer além de cochilar (e deuses, como ele achava estranho pensar que estava cansado de dormir) e observar a paisagem composta por casarões, campos verdes e coníferas de aparência bem antiga. Sua mais nova amiga, porém, parecia muito habituada à viagens daquele tipo. Depois de ouvir música por algum tempo ela tinha trocado o aparelho de mp3 por um videogame portátil, parecendo bem entretida com o que quer que estivesse jogando. Tanto que ela só pareceu perceber que o trem estava parado quando olhou pela janela, se espreguiçando.

– Em qual estação estamos?
– Erie.
– Ainda? – ela suspirou – me disseram que seria uma viagem demorada, mas não achei que fosse demorar tanto.
– Falou a pessoa mais preparada para viagens desse trem. – ele se sentou na beirada do banco ao lado de Morgan, dividindo espaço no assento com a mochila da adolescente
– Eu costumo viajar bastante. – ela deu se ombros, como se fosse natural – literal e metaforicamente, inclusive.
– Eu também, mas não costumo viajar de trem. Achei que seria bom, pra variar.
– Literal ou metaforicamente falando? – ela deu um sorrisinho de canto
– Acho que os dois. – ele sorriu também – Então… você está indo até Chicago?
– Não, não. Detroit. Tem um livro que eu quero muito e descobri que a única loja que tem uma cópia dele à venda está lá. – ela parecia genuinamente feliz e entusiasmada
– A pergunta pode parecer besta, mas… não seria mais fácil receber o livro pelo correio?
– Infinitamente! Mas eu preciso vê-lo pessoalmente antes. Sei que parece loucura mas…
– Loucura? Você é a pessoa mais normal com a qual eu conversei em meses.

Ela riu e os dois continuaram conversando amenidades.

Deixando Erie e a Pensilvânia para trás, alcançaram Ohio ainda antes do anoitecer. Era impressionante ver como as luzes da cidade brilhavam como estrelas durante a noite, mesmo se tratando de cidades pequenas como Kingsville e Edgewood. Por fim, o filho de Hades decidiu voltar para seu assento quando tornou-se impossível pronunciar uma frase sem bocejar no meio dela. Morgan desejou-lhe uma boa noite de sono baixinho, no mesmo tom de voz que estiveram usando para conversar nas últimas horas.

A velhinha já estava dormindo, o livro cuidadosamente fechado sobre seu colo. Nico esgueirou-se com cuidado para não incomodar a senhora e fechou os olhos, adormecendo rápido. Fora um dia surpreendentemente cheio e animado, tanto que ele esquecera o motivo de sua viagem diversas vezes. Afinal de contas, não era errado fingir ser um mortal comum uma vez ou outra, certo?

Se a vida de um semideus era estranha, em geral seus sonhos faziam ainda menos sentido, na maior parte do tempo. Desde que começara suas buscas pelas Portas da Morte, porém, Nico não tivera nenhum sonho do qual conseguisse se lembrar, por mais que tentasse. Todas as noites eram escuras e sem sonhos ou imagens das quais recordar e todas as manhãs eram desoladoras e vazias. Uma noite, porém – antes de decidir viajar – ele sonhara com uma igreja em Detroit, que mais tarde descobriria ser a Igreja de Saint Anne. Depois de dias sem saber para onde ir, em sua procura, depois de diversas buscas frustradas pelo Submundo, Nico decidiu aceitar aquele sonho como um palpite sobre onde buscar novas informações.

Naquele noite, seus sonhos o conduziram até a igreja novamente. O pátio de cimento estava vazio, iluminado apenas pelos postes da pequena e aconchegante praça em frente às portas do prédio principal. As torres góticas erguiam-se em direção aos céus, seu azul quase negro junto com o veludo noturno sobre a cidade, parcamente salpicado por estrelas. O horizonte era acinzentado e morto, coberto com camadas e mais camadas de poluição. Mas ao contrário de seu último sonho, onde ele estivera sozinho, havia uma mulher vestindo um vestido verde-escuro de veludo que caía na forma de suaves ondas no pátio de cimento. O véu sobre o cabelo contrastava com o rosto feminino e atemporal de pele branca como alabastro pálido. Os olhos, inteiramente negros, brilhavam de maneira severa e perigosa.

Ela encarou Nico por alguns segundos antes de virar-se em direção à igreja, o vestido ondulando conforme ela andava. A nave principal da igreja era grande, os passos ecoavam por todos os lados. Se aquilo não fosse um sonho o menino ficaria realmente preocupado com todo aquele barulho chamando a atenção de quem estivesse por lá. Ele seguiu até o altar da igreja, onde a mulher já o esperava. Ela apontou a parte de baixo do altar, feita de madeira envernizada e com adornos simples. O filho de Hades abriu a boca para fazer perguntas, mas uma ventania forte começou, o que era estranho considerando que as portas da igreja estavam fechadas. Ele sentia o cheiro de árvores e da noite, assustando-se com um estampido repentino.

O cenário da igreja desapareceu da frente de seus olhos quando ele acordou, ainda ofegante com o susto, o coração saltando em seu peito. Lá fora, ao longe, ele podia ver o lago Erie parecendo uma grande extensão de cetim escuro. O vento ainda soprava forte e ele percebeu que vinha de uma janela do outro lado do trem, onde Morgan deveria estar sentada. A mochila da moça ainda estava no assento que passara a viagem toda até então, mas ele reparou que os coturnos não estavam mais debaixo da janela. Os outros passageiros dormiam o mais profunda e confortavelmente que podiam nos assentos reclináveis. Ele sentia que algo muito estranho estava acontecendo. Aproximou-se da janela aberta passando a cabeça pelo vão, tentando ver algo. As luzes projetavam duas sombras vindas do teto do trem sobre as árvores que seguiam lado a lado com os trilhos. Aquilo fora o suficiente para que ele tomasse sua decisão. Fechou o vidro da janela, acabando com a ventania. Seguiu pelo corredor até a porta do vagão e a abriu, ficando entre os vagões.

A conexão balançava bastante, mas com um certo esforço ele foi capaz de escalar até o teto. O vento era forte, mas ele podia ouvir vozes conversando. Por medida de segurança, decidiu ficar escondido até entender o que estava acontecendo. Morgan estava de costas para Nico, os joelhos ligeiramente flexionados para manter o equilíbrio, costas retas de maneira altiva. O cabelo estava preso numa trança feita às pressas. À sua frente, uma Empousa, os cabelos vermelhos e flamejantes sendo arremessados para trás pelo vento. Ela tinha um sorriso perigosamente maldoso no rosto e parecia mais velha e mais perigosa do que outras empousas que Nico já tinha visto.

– Tenho que te parabenizar por me enganar tão bem, Morgana. Agora que você se revelou, importa-se de me contar como conseguiu esconder seu cheiro de semideusa?
– Os créditos do feito não são meus, são do meu pai. Sabe como é… o homem conhece alguns truques bem eficientes.
– Que mortal talentoso… adoraria conhecer alguém como ele pessoalmente. – ela mordeu o lábio sedutoramente; Nico sentiu um arrepio na espinha
– Receio que isso não seja possível pra você nessa vida, ou nas próximas. Vamos acabar logo com isso Empousa… Lâmia já foi longe demais.
– Longe demais? Esse é apenas o começo, criança. Quando levarmos nossos irmãos para o exército de Gaia, ninguém será capaz de impedir nosso avanço.
– Vocês são bem mais estúpidas do que eu pensava se acreditam que eu e Alabaster temos algum poder sobre nossos irmãos. É verdade que eles nos seguiram na Titanomaquia, mas não éramos nós quem eles seguiam, era o ideal de Alabaster! Mesmo se nós morrêssemos agora, vocês não teriam nada. Nada!

A Empousa emitiu um grito horrendo e ensurdecedor, avançando contra a jovem, que desviou habilidosamente com um salto para o vagão vizinho, só então percebendo o outro semideus ali no vão entre os vagões. Nico viu a surpresa nos olhos dela.

– Nico?! Eu podia jurar que você estava dormindo. O que você está fazendo aqui?!
– Eu estava, até esquecerem a janela aberta. O quê que tá acontecendo?
– Só uma amigável e mortal disputa familiar por um poder inexistente. – ela frisou aquela ultima parte, encarando Empousa; ela riu
– Ora querida, achei que fossemos deixar o menino de Hades fora da nossa contenda… embora nem toda a ajuda do mundo vá te salvar.
– E nós vamos deixa-lo fora dessa. Ele não tem nada a ver com isso.

E dito isto, ela atirou em Empousa. A mulher monstro foi pega desprevenida, recebendo o disparo em cheio, no meio do peito. Nico perguntava-se de onde a adolescente tinha tirado aquela arma brilhante como bronze celestial, impressionando-se ao perceber que havia uma segunda arma, gêmea da primeira, na mão esquerda. Já Morgan parecera impressionar- se com a rápida regeneração de Empousa.

– Mas como é possível…?
– O que foi irmãzinha… ninguém te contou o que está acontecendo? – a mulher gargalhou – nossa mestra nos deu a imortalidade! Você pode me atingir quantas vezes quiser, mas não será capaz de me matar!
– Morgan, ela está falando a verdade!! As portas da morte estão abertas e os monstros não param de ir e vir de lá!!

Como se duvidasse, ela descarregou todos os tiros de uma arma em Empousa, os projeteis espalhando pó e icor, o sangue dourado dos monstros e deuses, a cada impacto contra a mulher, mas era totalmente em vão; o pó espalhado logo retornava para a mulher e as feridas se fechavam, cuspindo para fora do corpo monstruoso e curvilíneo as balas que o tinham perfurado segundos antes. Embora não pudesse morrer, parecia bem desagradável levar todos aqueles tiros. As chamas do cabelo de Empousa se intensificaram e o sorriso sarcástico desapareceu de seu rosto.

– Sua…!
– O que você tá fazendo? Você só a irritou!
– Tinha que confirmar a teoria! Estou oficialmente sem ideias!

Ela desviou de outro ataque, sem ter muito para onde correr. O trem diminuiu a velocidade um pouco e era possível ver uma grande ponte logo à frente. Nico imaginou que fosse a ponte sobre o Grand River, que cruzava um profundo vale. Morgan o ajudou a subir para o teto do trem e juntos eles correram alguns vagões para frente, abaixando-se e desviando de ataques mágicos da Empousa.

– Magia? Essa é nova pra mim.
– Não é exatamente a especialidade dela, mas ela é poderosa e tem a vantagem de não morrer, nesse momento. – ela afastou o cabelo do rosto; o vento era forte
– Eu diria que é uma grande vantagem.
– Podemos virar a mesa. Centenas de anos atrás houve um desastre nessa ponte com um trem e uma porção de gente morreu… – ela e o garoto corriam ombro a ombro, evitando os golpes de Empousa.
– Coisa simpática pra se pensar.
– Especialmente porque deve ter muita gente na região pra quem um filho de Hades pode pedir ajuda. – ela sorriu – eu não queria envolver você nisso, mas já que apareceu, se importa de me ganhar algum tempo?
– Se você livrar a gente dessa, ganho o tempo que precisar.
– Fechado.

O filho de Hades estacou no caminho, sacando sua espada de Ferro Estige. Ele se concentrou, ignorando os gritos da Empousa e os golpes que zuniam em seu ouvido e conseguiu invocar alguns soldados esqueletos para ajudá-lo. A mulher freou sua perseguição, estudando seu mais novo adversário com cuidado. Era assustador perceber que ela e Morgan tinham os mesmos olhos verdes. Ele precisava ganhar tempo de qualquer jeito, então decidiu começar.

– Então… você e a Morgan são irmãs?

Empousa ficou perplexa.

– Não compare a linhagem mais poderosa dos filhos de Hecate com esses semideuses prepotentes, garoto. – ela estreitou os olhos
– Filhos de Hecate? Bom, isso explica a magia. Mas eu pensei que vocês estavam do nosso lado agora, com aquela história de Chalé no acampamento e tudo mais.
– “Do nosso lado”? Menino, você tem ideias bem erradas sobre nós. – ela riu – Deixa eu te contar uma coisa antes… não que você vá viver para errar a esse respeito, mas aprenda: nós, filhos de Hecate, só somos de um lado. E esse seria o nosso próprio. Ir a favor dos Olimpianos na primeira Titanomaquia ou contra, na segunda, só significa que estivemos lutando por nós mesmos esse tempo todo. E com a minha irmãzinha, que você está lutando para proteger achando que pode realmente me distrair com esse assunto leviano, não é diferente. Faça-se um favor e não deixe-a te enganar com a fala mansa e o jeito amigável. Agora, saia do meu caminho! Incantare: Aeris Flagellis!

Ela fez um gesto, jogando o filho de Hades para fora do teto; Nico sentiu como se tivesse sido atingido por um chicote de vento e estaria perdido se o trem não fizesse uma curva suave, permitindo-lhe segurar-se na beirada de um vagão quase no final do trem. Os esqueletos iniciaram o ataque contra Empousa e embora ele não pudesse ver, sabia que eles estavam lutando ferozmente (e sem nenhuma chance de vencerem). O rápido deslocamento do trem dificultava sua subida, mas depois de algum esforço ele estava de volta ao teto, dessa vez vendo as costas de Empousa alguns vagões a sua frente. Ele correu, preparando um ataque que seria impossível de ser defendido (como de fato não se defendeu); a lâmina negra cortou o tronco da mulher na diagonal e ela caiu, rolando para os últimos vagões. Nico virou-se para ver Morgan, que tentava desenhar algo parecido com um círculo mágico no teto; ele não entendia de magia, mas não sabia se um círculo tão Freestyle quanto aquele realmente funcionaria.

– Pronto! Agora ela só precisa pisar nesse círculo.
– Olhando daqui não parece muito com um círculo…
– O que importa é que vai funcionar. Vem!

Ele foi puxado pelo pulso até o final do vagão. Para frente só havia a cabine do condutor. Empousa já tinha tido tempo de se refazer e agora jogava para fora de seu caminho (e do trem) o último esqueleto que Nico invocara. Vendo que os semideuses não tinham para onde correr, ela caminhava na direção da dupla sem nenhuma pressa, mancando com sua perna de bronze celestial.

– O que foi? Já cansaram de lutar por suas vidas?
– Não, na verdade não. – a adolescente deu de ombros – só mais um passo.
– Passo?
Ceremonia: Compedis Malefica!!

Uma explosão de energia irrompeu do círculo de invocação, pegando Empousa de surpresa. Nico cobriu os olhos com a mão até que a luz diminuísse. A mulher-monstro ficou presa no círculo tremido e mal-acabado de Morgan, que parecia genuinamente feliz com o resultado.

– O que você fez, sua…?!
– Já que eu não posso te matar, você vai ficar aí de castigo nesse círculo mágico pensando o quão deselegante e não educado é tentar matar seus irmãos mais novos. E só saia daí quando sua energia mágica acabar ou você morrer, o que vier antes.

A seguir, Empousa gritou coisas bem desagradáveis, em mais idiomas e dialetos do que Nico pensou que ouviria em toda sua vida. Morgan desceu pela escada em direção ao primeiro vagão, onde ficavam as cargas pesadas que não podiam ser transportadas entre os passageiros. Ela sentou sobre uma caixa, respirando profundamente.

– E não é que, tirando uns arranhões, estamos inteiros?
– Eu não entendi como você fez isso, mas não sabe como eu fiquei aliviado por dar certo.
– Você ficou feliz? Imagine como eu fiquei feliz. – ela estendeu a mão para o menino; as armas tinham sumido há muito, mas ele reconhecia os anéis de bronze celestial – formamos uma boa dupla.
– É… formamos mesmo. – ele apertou a mão da garota – Filha de Hecate hein?
– É… – ela revirou os olhos, sem jeito – desculpe pela atuação esta tarde. Eu sabia que Empousa estaria atrás de mim nesse trem, não queria arriscar ninguém. Quando você se apresentou eu reconheci o nome, por causa do que ouvi sobre a segunda Titanomaquia em Manhattan, então decidi não dar bandeira pra ela não tentar te usar.
– No geral, deu certo.
– É, no geral. Obrigada pela ajuda.
– Sabe o que seria o agradecimento perfeito? – ele fez uma careta, ainda ouvindo os gritos de Empousa
– Mais brownies?
– Mais brownies.
– Ainda bem que minha irmã fez um monte.

E assim, retornaram até o vagão onde passaram grande parte do dia. Depois de um ou dois pedaços de bolo continuaram conversando baixo, para não incomodar os outros passageiros. Aparentemente ninguém tinha dado pela falta da Empousa, outrora passando-se pela gentil senhora ao lado de Nico. Aquilo fazia com que o menino se perguntasse até onde a Névoa podia ir para manipular a mente dos mortais.

– Será que o bilheteiro não vai dar pela falta da Empousa?
– Hm… por que ele sentiria? – a jovem bebia um gole de café
– Eu nunca sei como os mortais reagirão à Névoa… pode nos trazer problemas.
– Bem… só se algum mortal se lembrar dela. – ela fez um gesto floreado com a mão – manipular a Névoa para obscurecer a visão dos mortais é muito simples.
– Você… você pode fazer isso? – ele arregalou os olhos, se corrigindo depois – claro que pode, você é uma filha de Hecate, afinal de contas.
– É, eu sou. Posso te ensinar uma coisinha ou duas, se quiser.
– Mesmo?
– Ocultar ou revelar coisas com a Névoa é bem simples, na verdade.

Ele concordou, atento às explicações. Aquela foi uma noite longa e produtiva.

Nico despertou pela segunda vez sentindo a mão de Morgan em seu ombro. Era possível perceber a claridade do sol através dos vãos da cortina.

– Bom dia! – ela estava com aquela expressão animada de sempre
– Bom dia…
– Eu estou indo até o vagão restaurante tomar o café da manhã. Já passamos a estação do rio Maumee e como eu desço em Toledo achei que podíamos comer juntos.
– Ah, claro. – ele esfregou os olhos – foi bom você ter me acordado… eu não te falei aquela hora, mas eu também estou indo até Detroit.
– Ah é? – ela piscou algumas vezes, processando a informação – que bom, não vou ficar esperando o ônibus até lá sozinha. – ela sorriu – você não está indo atrás de um livro, está?
– Não, não. – ele riu, ficando mais desperto – pode ter certeza de que não quero nada com seu livro.
– Ufa! – ela colocou a mão sobre o peito, abrindo caminho para que Nico pegasse sua mochila no bagageiro – eu realmente estaria num grande dilema se tivesse que escolher você ou o livro.

O trem deu um solavanco e o garoto derrubou a mochila na própria cabeça. Felizmente, Morgan estava de costas, indo na direção do vagão restaurante, então ele não teve que lidar com o constrangimento daquela cena. Sentia suas bochechas quentes e o coração ligeiramente acelerado. Embora não estivesse enfrentando nenhum monstro naquele momento, não tinha tanta certeza assim sobre não estar em perigo.

~fim da primeira parte~

—————
Assim, todas as apresentações foram feitas.
Mas a viagem até Detroit está longe de acabar e ainda reserva muitas surpresas para ambos semideuses!
Você não vai ficar fora dessa, vai?
Não perca a parte dois, dentro de uma semana!

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