Como Nico conheceu Morgan – Pt. II

De Toledo à Detroit
Estação de Toledo, 8h

A manhã em Toledo era bonita e gelada, com o sol ainda parcialmente escondido pelas nuvens. Morgan tirou a mochila do ombro, sentando-se na área de espera, deixando todos os seus pertences juntos de suas pernas. Nico tomou seu lado, levantando a gola do casaco tipo aviador e fechando o zíper, escondendo a camiseta de caveira.

– Parece que vamos ficar aqui algum tempo.
– É. – Morgan suspirou – quando eu disse que vinha à Detroit de trem, me sugeriram pegar um avião justamente por causa do trecho de ônibus. Mas viajar pelo céu não pareceu uma opção realmente saudável.
– Te entendo perfeitamente.

Eles suspiraram, em conjunto.

Quando Morgan soubera do paradeiro do livro, dias atrás, jamais lhe passara pela cabeça que teria companhia para a viagem. Ela vivia no Brooklyn com mais cinco irmãos e um agregado da família. Titânia, a filha de Hecate mais velha da casa, era quem administrava tudo enquanto Morgan e os outros se esforçavam para reunir e garantir a segurança de outros filhos de Hecate espalhados por aí, antes da construção do chalé no Acampamento Meio-Sangue. A tarefa era difícil e envolvia grandes dificuldades e distâncias, mas todos estavam acostumados ao treinamento árduo e severo de Titânia, então viajar procurando pessoas era moleza. A casa era sempre agitada e barulhenta, por isso as viagens eram sentidas de maneira solitária e o tempo era percebido de maneira muito lenta, mas por isso mesmo Morgan tinha acostumado-se a levar coisas com as quais pudesse se distrair. A companhia de Nico era agradável e simples de lidar, mas só quando chegou em Toledo ela percebeu o quanto estava enferrujada nesse negócio chamado “interação social”.

– Bom… e o que você está indo fazer em Detroit?
– Sobre isso… – ele desviou o olhar para a estrada – é complicado.

Ela percebeu que estava entrando num terreno indesejado, então se calou. Ensaiou o que dizer em seguida uma ou duas vezes, mas a graça sobre as conversas é que elas normalmente eram uma via de duas mãos.

– Não me leve à mal mas…
– Não não, tudo bem. – ela fez um gesto com a mão – às vezes eu simplesmente pergunto o que não devia. Mas não esqueça que eu estou te devendo uma. Se precisar de algo que estiver ao meu alcance, peça. Um filho de Hecate sempre paga suas dívidas.
– Obrigado, realmente. – ele deu um sorrisinho discreto
– Não tem de quê. – ela sorriu, buscando algo em sua mochila em seguida – Sabe… meu pai é o melhor mago em feitiços de proteção que eu conheço. A obra-prima dele é um encantamento que ele aperfeiçoou ao longo dos anos, que pode esconder meu cheiro dos monstros.
– Isso parece conveniente.
– Bastante. – ela continuava buscando algo em sua mochila – por isso posso viajar com meus eletrônicos sem medo. Mas, você está aqui e te arriscar só pra afastar o nosso tédio não é legal, então…
– Então…?
– Ah, achei. – ela tirou uma caixa de dentro da mochila – a única distração analógica que tenho é essa.

Ela exibiu o deck com dezenas e dezenas de cartas de Mitomagia. Seu companheiro de viagem pareceu genuinamente surpreso, mas ao mesmo tempo havia algo em sua expressão que ela não sabia dizer o que era, enquanto ele observava uma carta após a outra.

– Se você não souber jogar… bem, eu posso ensinar. O jogo é simples e temos tempo. Mas, claro, só se você quiser jogar…
– Você tem a expansão steampunk inteira! – ele sorriu – isso é demais, nunca joguei com ela.
– Podemos acabar com esse “nunca” agorinha mesmo.

E com isso, passaram a próxima hora jogando, só percebendo o tempo que tinha passado quando o ônibus finalmente chegou e começou o embarque. Deram continuidade ao jogo durante o trajeto, até que Morgan começasse a ficar enjoada por passar tanto tempo sentada de lado, olhando para a janela do ônibus nas costas de Nico. Mas a meia dúzia de partidas tinha sido o suficiente para considerar o filho de Hades um jogador à sua altura.

– Ooookay… você joga bem. Poucas pessoas conseguiram ver através da minha estratégia do Abraço do Troll.
– “Abraço do Troll”? – ele riu – o nome é mais inesperado do que a estratégia, sinceramente.
– Nem vem, o nome é ótimo! – ela abriu um sorrisinho – eu e meu pai somos as pessoas mais criativas e fantásticas para inventar nomes para estratégias e outras coisas.
– Ah é?
– Por exemplo…? Por exemplo… – ela olhou em volta, obviamente tentando lembrar de algo – Ah! Isso aqui!

Ela levantou a manga do braço direto e correu a mão sobre ele, revelando símbolos luminosos azuis, que brilhavam e então apagavam-se depois de alguns segundos. Nico arregalou os olhos, num misto de supresa e maravilha.

– Isso é parte do feitiço de proteção que meu pai criou, a outra parte está no braço esquerdo. Chamamos de Luz do Tamboril.

O menino parecia incrédulo.

– Luz do quê?
– Do Tamboril. Sabe… em Procurando Nemo, quando a Dori e o Marlin estão procurando a máscara do mergulhador e descem até um lugar bem fundo no mar… aí eles são atraídos por uma luz, até um peixe grande e cheio de dentes. Esse peixe é um Tamboril.

Ele piscou algumas vezes, processando aquela informação, antes de desatar a rir. Morgan não entendia qual era a graça, mas naquele momento estava mais preocupada pensando que o menino ficava realmente bonitinho quando ria daquele jeito.

– Ué, qual é a graça?
– Você.
– Eu? Como assim? – ela sorriu, falsamente indignada
– O jeito que você explicou foi engraçado. – ele secou as lágrimas de riso – você e seu pai parecem se dar bem também, isso é legal.
– Ah… é bem fácil se você pensar que só nos vemos duas vezes por ano. Não moramos juntos desde que ele me contou que era uma semideusa. – ele deu um sorrisinho lacônico, encarando as cutículas que tentava arrancar com as unhas – Não que seja ruim morar com as minhas irmãs e irmãos, não é mesmo, nem de longe mas…
– Mas estar longe de alguém com quem nos importamos é sempre ruim e sempre dói, mesmo quando estamos perto dos nossos amigos. Eu entendo.
– Sim. Mas só dói mesmo quando sabemos que não podemos ver essa pessoa de novo, não é?

Ele concordou, em silêncio, desviando o olhar. Morgan mordeu o lábio inferior, pensando em como a conversa tinha se desenrolado. Mais uma vez, a aparência jovial e leve tinha sido substituída pelo olhar distante e taciturno, aquela postura introspectiva. Ela imaginou quem ele teria perdido, mas era um raciocínio fútil. Semideuses não eram conhecidos por suas vidas longas, felizes e bem-sucedidas.

– Posso… perguntar quem era?

Ela não queria ser inconveniente, mas como sempre, as palavras simplesmente pulavam para fora de seus lábios. Reprimiu-se mentalmente por ser tão curiosa, crente de que tinha estragado tudo e feito o menino recolher-se ainda mais dentro de sua concha. Sentia uma inexplicável simpatia por Nico desde que o conhecera no trem, pensando inicialmente que ele lhe fazia lembrar de um de seus irmãos favoritos, Manson. O menino tinha tido uma infância complicada e Morgan jamais se esqueceria do dia em que Titânia, sua irmã mais velha, chegara com ele em casa, agarrado à barra de sua saia. Magro, encardido, assustado como um gato de rua. Seu primeiro impulso naquele momento fora o de acolher Manson e mostrar-lhe que tudo estava bem, independente do que havia acontecido no passado. E esse impulso surgia agora, mais uma vez, conforme o silêncio que se instalara entre ela e Nico pressionava todos os músculos de seu corpo e seu peito. Ela estava mentalmente dividida entre se jogar pela janela do ônibus em movimento ou bater com a cabeça no banco da frente até que seu crânio virasse pudim, dado o vexame, quando ele finalmente falou.

– Minha irmã. O nome dela era Bianca.
– Bianca… – ela repetiu o nome, num tom quase sonhador – ela devia ser forte e meiga, como o nome.
– Ela era os dois, realmente.
– Mais… velha do que você?
– É. – ele encarava os próprios sapatos – quando ela estava em missão, passando pelo Depósito de Lixo dos deuses, ela se sacrificou para salvar nossos amigos de um autômato de Hefesto.

Morgan concordou, erguendo um pouco as duas sobrancelhas, como se escolhesse as palavras certas para dizer a seguir.

– Isso foi corajoso da parte dela. Corajoso e estúpido.
– Estúpido?
– Bom, sim. – ela deu de ombros – Deixa te contar um segredo: toda irmã mais velha é estúpida e super-protetora. Ela cuidou dos seus amigos e morreu. Eu abracei uma guerra que não era minha, falhei miseravelmente no meu objetivo e voltei pra casa chorando. Não é bonito, na maior parte do tempo não vai fazer bem pra ninguém, mas amor fraterno é isso aí.
– Você sabe que isso não faz sentido nenhum, não sabe?
– Hah! É claro que eu sei. – ela riu, dando de ombros – mas sabe o que faz menos sentido ainda? Eu faria tudo de novo, por cada um deles. E eu morreria 100 vezes se isso evitasse que qualquer um deles partisse. Eu entendo o sentimento de quem fica. A impotência. Mas dói bem menos quando não podíamos fazer nada para evitar o que aconteceu e temos consciência disso, do que quando pensamos que tínhamos esse poder em nossas mãos e erramos alguma escolha em algum ponto. Aí começamos a refazer todos os nossos passos, pensar o que fizemos de errado. E isso é de matar. E mesmo assim, eu faria tudo de novo.
– Morgan…
– Desculpa, eu divaguei. – ela riu – agora eu sou a doida dos brownies e das divagações. Mas… não é ótimo, de alguma forma, pensar que estamos aqui por quê alguém nos amou o bastante pra se desfazer da própria vida em nosso nome? Pensar que éramos tão importantes pra essa pessoa que ela simplesmente pensou mais em nós do que em si? Que uma parte de nós, agora, é o ato dessa pessoa e que vamos lembrar disso a vida inteira e que é justamente isso que faz tudo valer a pena.
– É… mas ainda assim é… triste.
– É. Mas ficar triste o tempo todo não costuma ajudar em nada. – Por isso… – ela revirou a bolsa – comemos brownies! São doces como felicidade e quentes como… hm… não estão quentes agora, mas isso não importa.

Ela sentiu que não era mais capaz de esconder as lágrimas, então deixou o pote de brownies sobre o colo de Nico, apressando-se em se levantar sob o pretexto de guardar a mochila no bagageiro. Ela controlava o impulso reflexo de seu corpo em tremer como se fizesse -20° lá fora, mesmo com o sol que entrava pela janela do ônibus, quente e agradável. Respirou fundo e devagar, controlando-se para não fraquejar. Estava tão concentrada em disfarçar tudo aquilo que foi pega de surpresa quando o menino a envolveu num abraço quentinho e confortável. Ela se rendeu, deixando um par de lágrimas rolarem, solitárias, enquanto pousava o queixo no ombro dele. Enxugou-as assim que pôde com as costas da mão, fazendo um gesto para que voltassem para o assento, já que os outros passageiros começavam a encará-los de um jeito estranho e meio suspeito. Mas o abraço tinha sido reconfortante e revigorante.

Ela retomou o pote de brownies, devorando um pedaço em pouco tempo, percebendo o olhar de Nico sobre si. Depois de algum tempo calados o filho de Hades retomou seu olhar perdido janela afora.

– Sabe… é uma dor difícil de se acostumar.

Ela não sabia o que responder, ou mesmo se deveria. Ela tamborilou os dedos no pote de brownies, ainda pensando no que fazer quando voltou-se para o menino, deparando-se com os olhos castanhos dele, agora fixos nos olhos de Morgan. Ela surpreendeu-se, ruborizando um pouco com a profundidade daquele olhar, tendo ali a certeza de que ele tinha sido capaz de entender tudo o que ela tinha dito. Ele deu um sorrisinho discreto, voltando à sua fisionomia usual, enquanto pegava um pedaço de brownie.

– Essa é a primeira vez que eu jogo Mitomagia desde que a Bianca morreu. Eu tinha a coleção quase completa… só faltava a carta de Hades. Foi ela que ativou as seguranças do Depósito de Lixo dos deuses, pegando a carta de Hades pra mim. – ele baixou o olhar – fiquei com tanta raiva de mim e do jogo que me livrei de todas as cartas. Mas me diverti muito jogando com você hoje. Obrigado.
– B-bom. Não tem de quê, mesmo. – ela não sabia o que dizer – Estou às ordens, sempre que quiser jogar.
– Que bom que você disse isso. Ainda precisamos desempatar nosso jogo.
– Você tem toda a razão.

E colocou-se a embaralhar o deck. Nunca tinha pensado que uma partida de Mitomagia traria tantas coisas à tona de uma só vez.

—————————
Mais uma parte da viagem chega ao fim, com revelações de ambos os lados.
Mas a missão de Nico ainda está longe de acabar.
E, o que seria esse livro que Morgan busca com tanto afinco?
Confira mais uma parte dessa aventura em uma semana!

Anúncios

Comente!

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s