Como Nico conheceu Morgan – Pt. IV

Parte IV – Nova York
Estação da Rua 86, 23h40h

Morgan ajeitou o cachecol e a bolsa do violão no ombro quando deixou a estação de metrô, apressando o passo. A noite estava fria o bastante para fazer com que ela pensasse em comprar uma meia-calça mais grossa para usar junto com seu short jeans preto e surrado. Ainda havia algum movimento nas ruas e alguns policiais iam e vinham entre o fluxo de transeuntes, o que a tranquilizava. A última coisa da qual era precisava era de um trombadinha mortal para lhe importunar. Seguiu até o ponto de encontro combinado anteriormente com seu contato e esperou. Odiava estar adiantada. Apesar disso, a noite sempre lhe agradara, e esta era uma noite especialmente bonita, o céu urbano tão limpo quanto poderia estar. Ela se recordou da paisagem mais rural que avistara durante a sua viagem, lembrando-se das estrelas e do céu infinitamente mais limpo com um quê saudoso. Fazia apenas algumas horas desde que deixara tudo aquilo para trás, mas já sentia falta.

A lua estava bem alta no céu, indicando a meia-noite. Um funcionário do parque passou, avisando que logo fechariam os portões e ela apenas acenou, em concordância. Mecanicamente, seus dedos gelados percorriam as ranhuras e relevos do embrulho que Madelaine Bloodheart tinha feito com cuidado para o livro, enquanto seus olhos vasculhavam os arredores em busca de uma figura conhecida. Todos os seus sentidos estavam alertas. Ela sabia que era errado entregar um livro como aquele para uma pessoa que não lhe inspirava confiança alguma, mas aquele tinha sido o acordo e ela cumpriria com sua parte em nome de seu pai. Ela suspirou, cansada da viagem, quando avistou uma pessoa pelo canto do olho. O manto azul e a cabeça raspada eram inconfundíveis.

– Kwai.
– Boa noite, Morgana. – o homem sorriu; Morgan não gostava dele – trouxe o livro?
– Depende. Trouxe o tratado?
– Naturalmente. – ele tirou um pergaminho de dentro da manga de seu manto – Vai gostar de saber que Sarah achou os termos de seu acordo bem razoáveis e que ela não se opôs em assiná-lo. Você nasceu sob uma boa estrela.
– Nossa sorte é a gente que faz. – ela deixou as malas no chão, segurando apenas o pacote do livro – se importa em abrir o pergaminho do tratado para que eu possa lê-lo?
– Ahahahaha! Sua desconfiança realmente te precede. – ele soltou o laço do pergaminho, abrindo-o e segurando-o para que ela lesse; ela correu os olhos pelas palavras e símbolos com agilidade; estava tudo certo
– Considere apenas uma prevenção. Sua má fama também te precede, Kwai.

Ele gargalhou, sem se importar com a ofensa. Ela trocou o livro pelo pergaminho, sentindo com aquilo que sua alma ficara um pouco mais leve. Aquela era uma promessa de que seu pai, seus aprendizes e todos os membros do 38º nomo seriam poupados da batalha que estava por vir; o descumprimento do acordo resultaria num feitiço de maldição destinado a todos aqueles que faltassem com sua palavra. A jovem não se sentia bem com aquele tipo de acordo e sabia que ele seria reprovado por qualquer membro do nomo em questão, mas ela faria o que estivesse ao seu alcance para poupá-los daqueles problemas. Kwai desfez o embrulho do livro, seus olhos cada vez mais abertos com a visão do objeto em sua mão. A filha de Hecate revirou os olhos, pegando suas malas, pensando apenas em chegar logo em casa e dormir. A viagem tinha sido agradável até aquele ponto, mas aquele acordo tinha lhe minado suas próprias crenças sobre si mesma por um momento e aquilo lhe cansava mentalmente.

Ela tinha se virado para ir embora quando sentiu a nuca formigar, esquivando-se instintivamente para o lado. Kwai tinha lhe lançado um relâmpago.

– Mas o que demônios você pensa que está fazendo?!
– O acordo é bem claro, Morgana. Vamos poupar o 38º Nomo. Mas você não é mais parte dele. Você é a prova de que se envolver com o caminho dos deuses pode ser muito perigoso. Seu pai achou que se tirasse você das vistas de Michel Desjardins estaria tudo bem, mas nós sempre estivemos de olho.

Morgan riu. Nem mesmo ela sabia se por achar a situação engraça, por estar nervosa ou ambos. Esticou suas mãos, fazendo surgir as armas de Bronze Celestial reluzente, Nix e Stiria, desenvolvidas sobre o modelo de uma Beretta 92FS, munição de 9mm tipo Luger.

– Kwai, você é um imbecil que não sabe com quem está lidando. Você acha que eu e meu pai violamos uma lei antiga seguindo o caminho dos deuses, mas aqui vai uma novidade para você. Ele não seguiu o caminho dos deuses. Ele seguiu uma deusa, mais especificamente. E então eu nasci. Você consegue entender onde eu quero chegar? Eu não sou uma porcaria de mago feito você. Eu sou uma semideusa, uma existência muito acima da sua mortalidade mágica mundana.

Aquilo atingiu o mago como um soco no estômago. Ele só se recuperou de sua supresa quando usou um feitiço para desviar os tiros disparados por Morgan.

– A situação é ainda pior do que imaginamos então. Realmente, não posso deixar você sair viva daqui, Morgana.
– Vamos ver se você é capaz de fazer tanto quanto é capaz de falar.

A jovem nunca tinha disparado balas de bronze celestial contra um mago, mas acreditava que não havia motivos para que não fossem tão efetivas contra eles quanto eram contra semideuses ou monstros. Fez mais dois disparos alternados, mas dessa fez eles foram interrompidos por outra coisa: um escudo mágico brilhou em volta dele. Ela estreitou os olhos, frustrada. “Primeiro, não consigo mandar minha meia irmã doida pro Tártaro porquê abriram as Portas da Morte. Agora não consigo acertar o mago porquê ele tem um escudo em torno de si! Essa é uma daquelas semanas em que eu deveria ter ficado em casa, upando”.

Ela correu para dentro de uma área mais densa em árvores para não ser um alvo fácil demais para Kwai, guardando as armas que nesse momento seriam apenas dois pára-raios inúteis. Ela ouvia os relâmpagos disparados pelo mago explodindo atrás de si, sentindo o calor e a eletricidade estática remanescentes após cada golpe. Pensou em chamar o reforço de sua irmã mais velha, mas levar uma bronca de Ttânia nem de longe era melhor do que o prognóstico de um raio no meio das costas. Revirou seus bolsos mágicos em busca de um cartucho de balas que tivessem alguma magia capaz de quebrar barreiras mágicas, mas constatou, triste, que o único que tinha disponível era para seu rifle .50, que jazia desmontado dentro da bolsa, perto de onde estivera sentada até então. Suspirou, confirmando seu pensamento inicial de que deveria ter ficado em casa upando.

Reorganizou os pensamentos. Precisava de sua arma para derrubar o escudo de Kwai. Também precisaria recuperar o livro que lhe entregara, afinal aquele tratado tinha se tornado muito questionável depois daquele ataque pelas costas. Tinha que contornar a distância já percorrida através das árvores sem chamar a atenção do mago. Se o pegasse pelas costas seria ainda melhor. Calculava que demoraria aproximadamente um minuto tirando a arma da bolsa e montando suas partes. Precisava abrir uma dianteira ainda maior para garantir que tudo correria de acordo com o planejado. Saiu em disparada através das sombras das árvores, pisando apenas em suas raízes, certificando-se de não fazer nenhum barulho e ter as sombras como aliada. Ela já avistava o banco onde suas malas permaneciam jogadas quando ouviu um ruído atrás de si. Um relâmpago estourou na árvore ao lado de sua cabeça, deixando-a zonza e surda com o barulho. Aquele tinha sido muito, muito perto!

Correndo na direção do banco, cambaleante, aproveitou seu desequilíbrio para rolar para o lado, evitando um novo ataque. Sua mão alcançou a alça da bolsa do rifle, enfim. Ainda não conseguia ouvir muita coisa com o ouvido direito, tampouco podia montar a arma em campo aberto, então abraçou a bolsa comprida, correndo na direção de outra formação árborea mais densa. Odiava estar encurralada daquela forma. Odiava estar surda. Por outro lado, adorava aquela sensação de urgência. O coração saltando para fora do peito, bombeando sangue tão rápido para seus membros em meio a adrenalina que ela sentia que poderia entrar em colapso à qualquer momento. Sua visão aguçada por trás das lentes dos óculos. A vivaz sensação que surgia quando estava correndo sobre o fio da navalha. Ela gargalhou. “Que bela lunática viciada em lutas eu estou me tornando, huh!

Perdida no meio do combate acontecendo à suas costas, perdeu de vista o que começava a acontece à sua frente. Um enorme vulto negro surgiu e seu reflexo foi rolar através do espaço que havia embaixo do que quer que fosse.

Sentiu cheiro de cachorro.

Um cão infernal imenso tinha se entreposto entre a semideusa e o mago, arfando com a língua de fora de um jeito bonachão. Ela nunca tinha visto um cão do inferno que não atacasse semideuses assim que os visse (embora normalmente os filhos de Hecate tivessem o benefício da dúvida, graças a sua afinidade natural com canídeos variados), mas não era agora que ela começaria a questionar aquilo. O bicho voltou-se na direção de Kwai, rosnando para o mago, exibindo todos os seus dentes. Ela aproveitou a cobertura para montar o rifle, surpreendendo-se quando uma pessoa saltou ao seu lado, vindo de cima do cão infernal. Rolou para trás, jogando o rifle no ombro com a bandoleira e sacando sua arma, fazendo mira imediatamente e engatilhando a beretta.

– Calma, sou eu!!

Ela arregalou os olhos selvagens, a respiração acelerada. E não é que as vezes os deuses sorriam para ela?

– Nico!? Como você…?
– Longa história, depois te explico. – ele sacou sua espada – Aquele cara está incomodando você?

Ela riu, pensando na frase. Não pensou que alguém fosse capaz de desarmar seu espírito tão facilmente.

– Ahahahaha! Sim, ele está me incomodando. Se importa de me dar uma mão?
– É só me dizer o que preciso fazer.
– Pode mandar seu bichinho embora, é um alvo muito fácil para ele, que ataca com relâmpagos. Ele está usando um escudo mágico para se proteger de ataques. Vou derrubá-lo com um tiro. Você recupera o livro que ele está carregando. Eu acabo com ele.
– Deixa comigo.

Eles se separaram, dividindo a atenção de Kwai. Morgan ainda sentia seu coração pulsar de ansiedade com a luta, mas a chegada do menino trouxera de volta parte da filha de Hecate de volta do buraco escuro onde tinha se enfiado com o combate. Sua fúria quase digna de um berserker tinha dado lugar à um sentimento mais consciente dos arredores e do que acontecia. Agora ela tinha alguém a proteger.

O menino avançou em direção ao mago sob o olhar cauteloso da atiradora, agora com a Barret .50 apoiada num tripé, apenas esperando o melhor momento de atirar. Quando encontrou a brecha que desejava, atirou. O projétil viajou rapidamente até o escudo, reluzente, estilhaçando a proteção mágica quando se chocou contra ela, tal qual como se tivesse se chocado contra uma vidraça. O mago ficou impressionado, passando a se esquivar dos ataques do jovem filho de Hades. Morgan jogou o rifle para trás e correu com as berettas nas mãos, atirando com precisão. A primeira bala mágica paralisou o alvo. A segunda o colocou para dormir. Ela guardou as armas, respirando algumas vezes antes de falar, retomando o fôlego.

Nico a ajudou a recolher suas coisas, incluindo o pergaminho do tratado. Ela ajeitou tudo de volta nos ombros, sentindo-se ainda mais cansada do que antes, agora que a adrenalina tinha parado de fazer efeito.

– E agora?
– Eu vou para casa. – a jovem se espreguiçou – foi muita emoção num dia só.

Ela suspirou, apoiando a testa na mão, segurando-se em Nico para não cair. O ouvido afetado pelo relâmpago começava a afetar seu equilíbrio agora que tudo tinha esfriado.

– Você está bem?
– Não como eu gostaria. – ela respirou fundo, tonta
– Vem. – o menino assobiou, chamando a Sra. O’Leary – eu te levo pra casa. Não vou deixar você sozinha desse jeito.

Ela não fez objeções. Apenas deixou que ele a ajudasse a subir nas costas do cão infernal, correndo rapidamente para fora do Central Park, antes que os mortais começassem a chegar para apagar os pequenos incêndios que tinham começado com os raios de Kwai nas árvores. Ela segurou-se com força em Nico, temendo cair. Sorriu, pensando que o casaco dele tinha cheiro de coisas antigas misturado a algo que ela não sabia identificar o que era, embora achasse bom.

Algum tempo depois, chegavam à rua Luquer, no Brooklyn. Ela não se lembrava de ter dito o endereço, mas então percebeu que o cão infernal estivera farejando o caminho através dos brownies. Esperto, ela teve que admitir. Nico desceu, prontificando-se a ajudar Morgan, que escorregou de cima do animal imenso, pateticamente cansada. Sentiu um arrepio na espinha quando a porta de sua casa se abriu antes mesmo que ela pisasse na calçada. Os passos calmos e medidos das botas de sua irmã soaram no batente da porta, conforme ela posicionava-se no centro da entrada, braços cruzados rigidamente. O olho direito estreitou-se.

– Isso são horas, Morgana?
– Boa noite, Titânia.
– Hmm. – ela emitiu um som em tom de avaliação enquanto observava os semideuses com seu olho bom – entrem logo vocês dois. Está frio e perigoso aqui fora.

Morgan concordou com um aceno, encaminhando-se para a porta. Nico virou-se para ir embora, mas Titânia se pronunciou de de novo.

– Não me fiz clara o bastante? Eu disse os dois.

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