Como Nico conheceu Morgan – Pt. V

Parte V – Nova York
Rua Luquer, 9h

Nico despertou, sentindo-se bem descansado. Não lembrava-se da última vez que tinha dormido tão confortavelmente, numa cama tão macia e quentinha quanto a do quarto de hóspedes da casa onde Morgan vivia. Ele se levantou e esticou os cobertores, sem muita prática. Podia ouvir vozes e passos pelo corredor. Ainda se sentia desnorteado pela série de acontecimentos que sucederam a chegada dos semideuses à casa.

A casa era espaçosa e aconchegante, em todos os sentidos. Quando atravessara a porta, na noite anterior, deparara-se com um corredor longo que dividia-se em duas portas opostas, um arco no final e uma escada à direita. O papel de parede vitoriano tinha ornamentos vinho sobre o fundo bege queimado. Titânia, a irmã de Morgan, aparentava ser uma mulher no auge de seus 35 anos. Mas ao contrário de Madelaine que tinha uma aparência jovial largamente atribuída aos seus gestos e trejeitos, Titânia era austera e rígida em sua maneira de falar, agir e vestir-se. A postura estava impecavelmente perfeita, assim como sua roupa passada e engomada. Vestia-se quase como uma governanta vitoriana; a camisa branca parecia ser puramente de algodão, as mangas longas terminavam em punhos adornados com uma discreta fileira de renda. A saia longa projetava-se em direção ao chão a partir da cintura, reta, lisa e cor de terra molhada, sua barra pairando como a boca de um sino em torno das botas de couro marrom que ecoavam no assoalho de madeira conforme ela andava. Seu cabelo era cor de fogo, curto e cacheado, cuidadosamente preso e modelado num penteado típico das mulheres durante a década de 1950. O batom escuro combinava com o tapa-olho do lado esquerdo, ajudando a destacar ainda mais o olho azul hortência dela.

Ela os recebeu perto da madrugada, conduzindo o filho de Hades até um quarto de hóspedes no andar de cima. O corredor superior tinha 10 portas, o que parecia impossível levando em conta o piso de baixo. Mas afinal de contas aquela devia ser a coisa menos estranha numa casa repleta de feiticeiros. O corredor dos quartos tinha o mesmo papel de parede do Hall de entrada e uma arandela dupla na forma de abajures entre cada porta. A casa toda cheirava suavemente a ervas, temperos e um incenso levemente adocicado. Quando Nico finalmente deitou-se para dormir percebeu o quanto estava cansado, caindo num sono profundo e sem sonhos até a manhã seguinte.

Quando despontou pela porta do quarto deparou-se com uma mulher jovem, na casa dos 20 e poucos. Os cabelos longos, loiros e platinados estavam soltos, escorrendo ao lado de seu rosto e pelos seus ombros. Ela mais alta e mais magra do que Titânia, numa fisionomia que as pessoas poderiam chamar de elegante, além de movimentar-se com leveza e uma leve teatralidade. O menino lembrou-se das histórias sobre as fadas, o Bom Povo. Curiosamente, a moça lhe fazia lembrar muito mais da Rainha Féerica de Sonho de uma Noite de Verão do que a mulher que levava seu nome. Ela desenrolou os braços do chale pink que trazia por cima da camisola azul-claro e longa, tocando com suavidade no braço de Nico.

– Bom dia querido. Dormiu bem?
– Sim, obrigado.
– Me acompanha até a cozinha, para o café da manhã?

Ela enlaçou o braço do menino com um movimento gracioso e delicado e ele apenas concordou com um aceno de cabeça, descendo as escadas e fazendo o caminho até a porta que ele vira no fundo do Hall de entrada na noite anterior. Titânia já estava vestida, quase que exatamente como no dia anterior e cozinhava algo que pareceram-lhe panquecas. Morgan estava sentada num banco alto ao lado da bancada no centro do recinto, os pés apoiados na beira do assento, o queixo sobre os joelhos flexionados enquanto assistia sua irmã cuidar do café da manhã.

– Morgana, florzinha, você voltou! – a mulher soltou-se de Nico, abraçando Morgan e a beijando na testa – deveria ter vindo me ver na mesma hora!
– Você estava dormindo Domenick, não quis te incomodar. Mas vejo que já conheceu o Nico.
– Oh sim, embora não tenha me apresentado adequadamente. – ela sorriu – sou Domenick Frye, a irmã bozinha da Morgana. – ela piscou com um olho só, olhando com de para Titânia
– Eu sou Nico di Angelo, prazer.
– Aaii Morganinha! Não estou preparada psicologicamente pra este dia tão importante! – ela agarrou a irmã, dramática
– Dia importante? Que dia importante? – ela tentava se desvencilhar da loira
– O dia em que você vai trazer seu namorado pra nos conhecer.

Se Domenick não estivesse segurando Morgan, ela teria despencado do banco. Nico trocou o peso do corpo de perna, sem graça.

– T-tá maluca?! Eu e o Nico nos conhecemos durante a viagem, somos só amigos!
– Ah é? – ela pareceu decepcionada
– Sim. Empousa apareceu no trem, tentando me matar e o Nico me ajudou a impedí-la.
– Ow… Empousa… sempre tão extremista. – ela balançou a cabeça, desesperançosa – Fico feliz que Tique tenha conduzido essa feliz coincidência.
– Não foi nada. Morgan só precisava de uma mão.
– Tão humilde. – ela sorriu, sendo interrompida por Titânia
– O café está pronto. As mocinhas podem deixar um pouco do assunto para a mesa, acredito.

O café começou sem mais delongas, Morgan e Domenick ainda conversando animadamente, vez ou outra com a intervenção de Titânia. O menino imaginava que, num mundo longe de monstros e criaturas fantásticas, aquele café da manhã deveria ser bem normal e corriqueiro. Sentia uma dor no coração pensando o quanto aquilo era distante pra maioria dos semideuses, embora, ao mesmo tempo, achasse muito curioso que aquela casa não estivesse cercada por monstros no momento em que comiam suas panquecas e bebiam suco de laranja fresco. Tão curioso quanto a impressão que tinha de que Titânia o estava observando atentamente entre uma garfada e outra. Não era de se estranhar, afinal de contas semideuses normalmente estavam entre as criaturas mais desconfiadas da terra, precedidos apenas por gatos, dragões famintos por tesouros e deuses. Ele ainda estava decidindo se realmente estava sendo observado ou não quando ouviu a porta de entrada se abrindo. Titânia revirou o olho, enquanto que Domenick trocou olhares com Morgan balbuciando um “Tão certo quanto o fato de o dia vir depois da noite!” em meio a risos. Após uma série de passos até a cozinha um homem jovem despontou; vestia um jeans skinny cinza desbotado com glitter colorido nas laterais, uma camiseta creme com degradês de laranja e azul, no que parecia formar um pôr-do-sol em seu peito com uma camisa de flanela por cima, formando um visual despojado reforçado pelas munhequeiras de couro preto e o um cordão encerado com um pingente por cima da camiseta. A barba estava por fazer e ele sorriu de maneira charmosa quando apoiou-se no batente da porta, observando todos com seus olhos felinos.

– Bom dia meninas. – e então pareceu notar Nico – e semideus desconhecido.
– É o Nico, amigo da Morgan. – Titânia apresentou o menino, sem rodeios; ele acenou
– Oi.
– Amigo da Morgan? – a voz dele soou como se aquilo fosse impossível, ou muito inesperado
– É sim. – ela o encarou com uma expressão azeda
– Que seja. – ele deu de ombros, apertando a mão de Nico em seguida – O prazer é todo seu menino. Sou Magnus Bane, também conhecido como o Feiticeiro do Brooklyn.
– Também referido como “parasita ignóbil” por Titânia. – Domenick sussurrou denovo, arrancando risinhos de Morgan
– Recalque. Vocês não saberiam viver sem mim. – ele se sentou e se serviu, sem se incomodar – Aliás, vocês viram a confusão de ontem à noite no Central Park? Parece que ouve um tiroteio por lá, no meio de uma tempestade de raios. Loucura.

Aquele fora o pedaço de panqueca mais atravessado que Nico engolira. Não parecia ter sido o melhor para Morgan também. Magnus sorriu, como se soubesse de algo que ninguém mais sabia.

– Ah, é Nova York, Magnus! Coisas loucas acontecem aqui todos os dias.
– Isso é um fato irrefutável, Morgan. – ele sorriu
– Eu só gostaria de saber uma coisa. – Titânia cruzou os dedos em frente ao rosto, apoiando os cotovelos na mesa – E seria por quê você traz a Bússola dos Mortos com você, Nico.

O menino se calou. Ele tinha deixado a Bússola em sua mochila, não tinha? Como Titânia sabia dela? Mas, afinal de contas, estavam numa casa cheia de filhos de Hecate. Se as coisas não faziam muito sentido entre os semideuses não mágicos, que dirá entre aqueles que eram feiticeiros? Morgan pareceu juntar uma peça a outra, observando o menino com seus olhos verdes. Não fazia muito seu estilo mentir, especialmente quando era um convidado bem tratado numa casa amiga. Ele avaliava mentalmente as chances de aquilo dar errado. Enfim, ele tinha vencido Sofos, não tinha? Então não haveriam problemas.

– Preciso dela para chegar até as Portas da Morte. Prometi aos meus amigos que as encontraria para fecharmos e impedir assim que os monstros continuem voltando à vida. Faz parte da nossa missão.
– Eu só imagino o mau humor que o Sofos deve estar depois de perder no desafio dele.

Magnus, Domenick e Titânia se entreolharam, caindo na gargalhada, aparentemente felizes com a ideia de Sofos perder num teste imposto por ele. Morgan era a única que ainda tinha os olhos em Nico, atônita.

– Péra, você tá pensando em buscar isso sozinho?
– Na verdade, já estou buscando a algum tempo… – ele deu de ombros – não deve ficar mais complicado do que já foi até agora.
– Se continuar pensando assim, vai terminar aprisionado por monstros, ou pior! – ela levantou-se, exasperada – Vem, eu não vou deixar você ir embora desse jeito.
– Mas, eu preciso. – ele a encarava, sem perceber que era puxado pelas mãos
– Eu sei que precisa. Domenick, aquele círculo ainda está desenhado na Biblioteca?
– Está sim, fofinha. – ela fez um aceno com a mão, desimportante – o que tem em mente?
– Isso.

Ela esticou o braço, exibindo as proteções luminosas que trazia desde o ombro até as mãos. A feiticeira bateu uma palma, sorrindo.

– Uma rara e maravilhosa oportunidade de ver a minha irmãzinha usando magia, que lindo! Eu vou com vocês.

Ela acompanhou a dupla pela sala de estar e então através de uma porta que dava numa grande biblioteca circular cujas prateleiras estavam abarrotadas por livros de todos os tamanhos e idades. Pilhas de livros estavam espalhadas pelo chão em volta da mesa de mogno, que tinha pergaminhos e todos os tipos de papéis espalhados em cima. Poltronas de couro estavam dispostas próximas às estantes, decerto para servir à vontade de seus ávidos leitores. O ambiente cheirava a poeira e livros guardados a muito tempo. Num pequeno espaço circular, com um solar, havia um círculo desenhado com tinta branca sobre o piso. Morgan arrastou uma cadeira até o centro do círculo. Magnus e Titânia chegaram em seguida.

– Vou transferir parte do feitiço de proteção, que meu pai fez, para você. Eu precisaria estudar anos até poder reproduzir algo do tipo, mas transferir o efeito é bem mais simples.
– E… como você vai fazer isso?
– É um processo bem simples, na verdade. Você vai ficar com marcas iguais as minhas enquanto o feitiço estiver ativo. Quanto mais forte a luz, maior o tempo de duração que ele ainda tem. Eu desenho as marcas nos seus braços e na sua testa também, com você dentro do círculo. Depois que isso estiver pronto, o círculo transfere a quantidade de magia necessária para que o feitiço funcione e voilà. Claro que é um pouco mais complicado do que só isso mas…
– Acho que entendi.
– Eu só acho, Morgan, que a quantidade de energia aplicada à duração é muito grande. – Titânia estava de braços cruzados, no canto da sala
– Tem que ser, pra ter certeza de que vai funcionar onde quer que esteja.
– Hm. – ela apertou mais os braços cruzados, sem se pronunciar
– Podemos começar quando você estiver pronto.
– Ok.

Pouco tempo depois, o menino estava sentado numa cadeira no centro do círculo mágico, observando conforme Morgan desenhava os símbolos em seus braços, pronunciando palavras em grego a cada novo desenho. De vez em quando, seus olhares se cruzavam, e ela respondia com um sorrisinho confiante. Titania e Domenick assistiam a cena, ladeadas por Magnus, como que para ter certeza de que tudo corria adequadamente. As mãos dela estavam quentes quando ela segurou o cabelo de Nico, para desenhar o símbolo em sua testa. Ela soprou de leve para que a tinta secasse antes que ela soltasse a franja disforme e rebelde do menino.

– Está sentindo alguma coisa diferente?
– Hm… não… pra falar a verdade, não.

A menina arregalou os olhos e levou a mão à boca, como se Nico tivesse dito uma atrocidade sem tamanho. Ele se assustou.

– O quê? Deveria ter algo de diferente?!
– Olha Nico… – ela desviou o olhar para o lado; ele acompanhou e viu Domenick segurando o riso – Não, nada, foi só pra descontrair mesmo.

Ele fez uma cara feia, enquanto ela ria.

– Ahahaha… pronto… pronto, parei. – ela enxugou as lágrimas de riso – estamos prontos pra começar o show de luzes agora.

Ela saiu do círculo, ajoelhando-se e colocando ambas mãos sobre um dos anéis desenhados no chão. Nico percebeu que ela falava em grego, mas conseguia entender o que ela queria dizer perfeitamente: Sete Círculos para Proteger, Sete Círculos para Fortalecer. Sete forças para Repelir, Sete palavras para Transferir. Mente. Consciência. Certeza. Força. Resistência. Discrição. Barreira.

Imediatamente, uma luz arroxeada começou a iluminar o círculo mágico. Ele percebeu que Morgan tinha várias outras marcas mágicas espalhadas pelo corpo, que começavam a brilhar conforme ela recitava o encantamento. Uma grande quantidade de energia mágica circulava, e Nico podia sentir um leve formigamento nas marcas que estavam desenhadas em seus braços. Ele podia ver a expressão séria de Morgan, como se ela estivesse fazendo um grande esforço. Ela continuava recitando o encantamento com a voz firme e no mesmo passo, mas as gotas de suor em seu rosto ficavam cada vez mais evidentes. Alguns segundos depois, os braços de Morgan começavam a tremer, e olheiras profundas surgiam no rosto da menina. Titania ergueu uma sobrancelha, preocupada, mas não parecia ter nenhuma intenção de interferir no meio do ritual. Mais alguns segundos depois, fumaça começou a sair do ponto onde as mãos de Morgan tocavam o círculo, e Nico perguntava-se quanta energia ainda seria necessária para a conclusão do encantamento. Quando este pensamento cruzou sua mente, ele ouviu a última palavra do encantamento dita com mais intensidade, e a feiticeira puxou as mãos do círculo, caindo para o lado sem fôlego enquanto as luzes se apagavam. Nico saltou da cadeira e ladeou Morgan; sua aparência era péssima, mas ela sorria.

– O encantamento foi um sucesso.
– Um sucesso? E quanto a você?
– Só um efeito colateral da grande liberação de energia. – ela tentou se sentar, ele a ajudou
– Aqui, beba isso querida. – Domenick estendeu um pequeno cálice com Néctar para Nico, que serviu para Morgan; suas bochechas voltaram a um tom pálido menos assustador
– Obrigada.

Nico a levou até uma poltrona, onde ela afundou na almofada, sua respiração não estava mais tão acelerada e as olheiras já tinham desaparecido.

– Agora você está pronto pra continuar sua missão. Já se atrasou demais por minha causa.– ela apontou o pincel ainda com tinta – pode pegar aquilo para mim?
– Aqui.

Com um pouco de dificuldade, ela segurou o pincel com leveza, desenhando um último símbolo na mão de Nico, que então brilhou e desapareceu imediatamente.

– Se precisar de minha ajuda, algo que só eu possa fazer – ela tomou fôlego – é só dizer meu nome e eu saberei que você precisa de minha ajuda, e onde você está. Então… se por um acaso der alguma coisa errada em sua viagem, basta me chamar.

Ele concordou com um aceno de cabeça, solene.

– Titânia, Domenick. Preparem uma mochila para a viagem do nosso convidado e mostrem-lhe a saída, por favor.
– Com prazer, querida. – Domenick saiu em direção à copa, junto com Titânia.

Pouco tempo depois, Nico deixava a casa sob o olhar vigilante de Magnus e Titânia. Domenick tinha ficado com Morgan. Sem delongas, o menino retomou sua viagem em busca das Portas da Morte.

Surpreendeu-se, porém, quando percebeu algo em seu bolso do casaco, algo que não tinha notado até então.

Um pequeno embrulho que, quando aberto, revelou-se um deck completo do Mitomagia clássico. Não tinha nenhum bilhete, mas ele sorriu, pensando até onde aquela filha de Hecate tão peculiar seria capaz de surpreendê-lo.

——————-
Tcharaaaans!
Eis o último capitulo desse intrigante spin-off!
Retornaremos à nossa programação original dentro de uma semana!
Não percam! ^^

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