Casa de Hades – Capítulo IX – Percy

O caminho transcorreu de maneira relativamente tranquila quando Annabeth despertou. Eles comeram um pouco, embora não sentissem fome, checando o machucado no tornozelo da semideusa antes de prosseguirem. Apesar das poucas horas de sono, era como se a garota estivesse aparentemente ainda mais cansada do que antes, embora se forçasse a continuar a andar. Percy sentia-se angustiado, percebendo que a pessoa que ele ajudava a andar naquele momento parecia menos Annabeth a cada passo que avançam. Ele se perguntava se ela tinha a mesma impressão de Percy, ou ainda se ela estava sentindo mais os efeitos da energia do Tártaro por estar ferida. Qualquer possibilidade que lhe viesse à mente parecia a mais plausível e a mais absurda ao mesmo tempo.

Pelo momento ele considerava uma grande coisa não terem encontrado com nenhum monstro ou habitante do Tártaro até aquela altura do trajeto. Para Percy, estar no Tártaro naquele momento era, provavelmente, como ser o Batman e estar no Asilo Arkham; o rapaz havia despachado dúzias e mais dúzias de monstros para a infame prisão do Submundo, incluindo na lista o próprio Chronos. Não topar com nenhuma criatura clamando por vingança era um ponto muito positivo naquele contexto, e provavelmente o único. Mas, uma coisa chamava a atenção de Percy desde a sua noite (ou dia) de vigília enquanto Annabeth dormia: ele passara a ouvir sussurros. No começo ele pensou que podia ser a própria Annabeth falando enquanto dormia, mas ela não havia emitido nenhum ruído (embora não parecesse ter tido o sono mais restaurador de sua vida). Conforme avançavam, Percy compreendeu que as vozes vinham de toda a parte, fazendo-o sentir quando visitara o Aquário de Fórcis. A diferença é que ele não ouvia um bando de criaturas marinhas animadas com a presença do filho de Poseidon, mas, acreditava ele, as vozes daqueles aprisionados no Tártaro.

Algumas horas depois, que mais pareciam dias, resolveram descansar. Dessa vez apenas beberam água e um pouco de néctar para restaurar as forças, acabando com a água. Percy acrescentou: “encontrar uma fonte” em sua lista mental de coisas a fazer, logo antes de deixar de ouvir vozes e encontrar a saída daqui.

– Percy, você acha que conseguiria sentir água aqui?
– Eu não sei, mas posso tentar.

Ele fechou os olhos e se concentrou, ignorando os constantes sussurros. Uma ou duas vezes perdeu o foco, mas a presença de Annabeth o ajudava a pensar no que realmente precisava fazer naquele momento. Bem distante dali ele sentiu uma presença tênue. Ele soltou uma exclamação, animado, dirigindo-se até o local.
O Tártaro começava a ficar diferente, o terreno acidentado e rochoso se estabilizando e sendo gradualmente substituído por uma grama baixa, rígida e escura. Árvores esqueléticas e negras erguiam-se tortuosamente para cima, contorcendo-se para os lados como se estivessem agonizando. Não havia céu ou teto visível; a partir de um certa altura tudo parecia ser coberto por sombras e escuridão sem fim. Alguns metros à frente já podiam ouvir o som de um riacho, fraco e distante. Mais alguns metros adianta e ouviam vozes femininas, ora conversando, ora discutindo. Não tardou a avistarem diversas moças, 14 delas, bonitas e parecidas entre si, como irmãs. Todas, sem exceção, carregavam ânforas com água na até uma enorme banheira de ouro, mas a água despejada caía direto no chão, embora aquilo não parecesse abalar as moças que continuavam com sua tarefa enquanto tagarelavam. Annabeth segurou mais forte o braço de Percy, preocupada.

– Não sei se devíamos nos aproximar mais Percy.
– Bem… somos dois e elas são 14. – ele começou – eu também não acho a melhor ideia do mundo, mas o riacho está logo ali.
– Meninas, temos visitas!!
– Visitas?!
– Nossa, faz muito tempo!!

Era um pouco tarde para passar despercebidos. As moças na beira do riacho acenaram animadamente e aquelas que agora despejavam a água na banheira tinham fixado seus olhares no casal de semideuses. A que parecia mais velha se aproximou com a ânfora debaixo do braço.

– Cheguem mais perto, não tenham medo. A última vez que vimos pessoas por aqui… bom… éramos nós mesmas!

As irmãs mais novas riram nervosamente. Algumas apenas reviraram os olhos, tão entediadas com o senso de humor da irmã mais velha quanto Percy naquele momento. Annabeth parecia nervosa e cansada.

– Venham, sentem-se um pouco. Se refresquem. Temos água de sobra aqui. – ela sorriu, solicita

Annabeth simplesmente não teve como recusar, cansada como estava. Percy ficou alerta, embora a única coisa que as moças fizessem fosse tentar encher a banheira, enquanto ele caminhava até o rio para reabastecer seus cantis. Ele sentia os olhares curiosos das moças sobre si e podia ouvir Annabeth conversando com as mesmas. Por mais que tentasse se lembrar, nada lhe ocorria sobre quem eram as moças e o que elas tinham feito de mal para estarem no Tártaro.

Quando Percy voltou para perto de Annabeth notou que ela parecia descansada e menos desconfortável perto das irmãs e suas ânforas. Ela sorriu quando o filho de Poseidon quando este se aproximou.

– Tudo bem por aqui?
– Sim. Estava conversando com as danaides, Percy, elas sabem onde fica a saída.

Por “saída“ ele imediatamente pensou que se tratava das Portas da Morte.

– Sabem…?

Ele tentava raciocinar melhor agora que percebera quem eram aquelas moças. Danaides, as 15 filhas do rei Danaus. Num acordo entre Danaus e seu irmão Egipto, as 15 filhas de um foram prometidas aos 15 filhos do outro, mas nem Danaus nem suas filhas desejavam aqueles casamentos. Na noite de núpcias as moças assassinaram seus maridos, sendo condenadas pelos deuses a passar a eternidade no Tártaro enchendo a banheira onde poderiam lavar-se de tais pecados. Ele foi tirado de seus pensamentos pela voz da mais velha delas.

– Claro que sabemos. Ou você acha que ficamos aqui todos esses eons realmente só enchendo essa banheira estúpida de água? – ela sorriu
– É, bom, você tem um ponto.
– Em troca…

Ah, claro que não poderia ser tão fácil como parecia.

– … você e sua amiga teriam que nos ajudar e encher a banheira.
– Você e suas irmãs não conseguiram em milênios, o que te faz pensar que conseguiríamos hoje?

A Danaide mais velha sorriu, colocando sua ânfora de lado.

– Vocês dispõe de muito mais equipamento para isso do que nós… além do mais, nós estamos acostumadas a ficar aqui, por mais ingrata que seja nossa punição. Já vocês… bom… não vão durar muito tempo aqui.

Ele entendia perfeitamente o que ela queria dizer. Se o submundo já não era um local bom para pessoas vivas, o que dizer então do Tártaro? Annabeth parecia um pouco mais animada do antes, era verdade, mas ainda assim ela não parecia tão Annabeth assim. Por outro lado, definitivamente não parecia uma boa ideia interferir numa punição que existia há Éons, mas Percy estava realmente ficando sem opções.
O filho de Poseidon ponderava sobre a oferta feita pela Danaide mais velha, só então dando-se conta de que todas as atenções estavam voltadas para ele. Os únicos sons que ele ouvia eram a respiração de Annabeth e o som do rio; todas as irmãs tinham deixado de lado sua tarefa frustrante e eterna para ouvir qual seria a resposta de Percy. Ele sabia que em algum momento ele se arrependeria demais daquela decisão, mas não havia mais nada que ele pudesse fazer naquele momento. Respirou fundo.

– Eu aceito a proposta desde que você jure pelo Estige de que nos dirá o caminho certo para as portas da morte quando tivermos terminado a nossa parte do acordo.
– É um rapaz precavido. – ela sorriu – que assim seja, eu juro pelo Estige que lhes direi o caminho certo uma vez que vocês terminarem sua parte no acordo.

Com isso, ele se voltou para a banheira de ouro; ela emitia um brilho tênue, sugerindo que provavelmente era feita de Ouro Imperial. Por todo contorno do fundo da peça, cânulas se esticavam para fora dos limites da banheira e despejavam a água depositada no chão de pedra, que era a única coisa que impedia que aquilo se transformasse num brejo. Parecia bem simples de impedir que a água escoasse pelas cânulas, simples até demais. Annabeth também parecia pensar nisso, circulando a banheira atrás de uma conclusão, a mão segurando o queixo enquanto ela fazia a costumeira expressão de quando começava a bolar um plano. Percy não conseguia pensar em nada que tivesse consigo para tapar o fluxo de água das cânulas, que por sua vez parecia ser o caminho mais simples para resolver o impasse.

Percy pensava, mas Annabeth já parecia ter uma solução em mente. Ele a observou caminhar até o leito do rio, onde ela parecia buscar algo nas margens carecas e ricas em lama. Ela caminhava engraçado, como se testasse o solo por onde pisava com os pés, e então o filho de Poseidon começou a entender o que ela estava tentando fazer; se encontrassem lama argilosa o bastante, poderiam tapar as cânulas como se a lama fosse uma rolha. Os jovens recolheram dois punhados de lama e retornaram para perto da banheira de ouro, os olhares curiosos das Danaides sobre si. As mãos ágeis de Annabeth trabalhavam cuidadosamente, enquanto os olhos estudavam as cânulas.

– Percy, o forro da mochila. Preciso dele.
– Precisa? Ok.

Se ele tinha aprendido algo em todos aqueles anos era que os planos de Annabeth sempre davam certo. Sem pestanejar ele cortou o forro da mochila surrada com a Contracorrente, entregando a peça de tecido para a filha de Athena. Ela pareceu satisfeita com o objeto, dividindo-o em tantas partes quanto o número de cânulas na banheira. Isto feito, ela envolveu um pouco de lama com o tecido, formando uma esfera pouco maior do que o diâmetro de uma cânula. Com um pouco de jeitinho ela conseguiu tapar o vazamento de água.

As Danaides vibraram, mas calaram-se quando uma sombra surgiu perto da banheira. Para Percy, a foice de Ferro Estige era inconfundível.

Tânatos estava lá, e não parecia muito feliz.

————————

Tcharaaaans!
Finalmente de volta, depois de um longo hiato!
Pra variar, Percy se metendo em novas confusões para tentar sair das confusões antigas.
Na semana que vem tem mais!

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