Casa de Hades – Capítulo XII – Morgan

A filha de Hecate só entendeu o real significado das palavras de Nico quando ouviu um rugido estranhamente familiar: Quimeras. Não ventava, mas ela sentiu um arrepio na espinha quando pensou que o filho de Hades teria que lutar sozinho da maneira como estava. Mais do que isso, quando pensava que ele havia escolhido lutar sozinho. Terminando de desenhar o círculo na rocha com pressa ela procurava equilibrar o frasco com terra e o frasco com água em rachaduras no paredão de pedra, ficando aflita com os sons do combate. Repetia mentalmente para si mesma que se concentrasse, mas era difícil.

Quando finalmente terminou, no que parecia ter sido um processo infinitamente mais longo do que todas as outras marcações que tinha feito antes, gritou a plenos pulmões, pedindo para ser içada de volta, mesmo sabendo que provavelmente não seria atendida. Pela primeira vez em muito tempo, ela não sabia o que fazer. Tentou escalar o paredão rochoso aproveitando a corda que tinha na cintura, mas o esforço fez com que sua perna latejasse de dor… descer havia sido infinitamente mais simples. Respirando fundo e decidindo tentar ignorar a dor ela conseguiu dar dois passos para cima antes de se assustar e cair de volta para onde estivera até então: Nico tinha acabado no chão lá em cima, a cabeça para fora do penhasco enquanto mantinha as presas da Quimera longe de seu pescoço com sua espada de Ferro Negro.

– Hmm… e aí…? – a voz do rapaz falhava e um filete de suor escorria pela têmpora dele
– Tendo um dia difícil? – ela cruzou os braços em frente ao peito, erguendo uma sobrancelha
– Pode-se dizer que sim… – ele lutava para manter a Quimera quieta
– Se quiser ajuda, é só pedir.
– Obrigado pela consideração.

Com habilidade e força, o menino conseguiu chutar a Quimera para fora do penhasco, sentando-se e limpando o suor do rosto. Morgan pigarreou alto e, com a ajuda de um esqueleto (que tinha perdido o braço esquerdo no combate) puxou a jovem para cima. Morgan subiu com dificuldade, batendo a poeira da roupa em seguida. Foi mais ou menos nesse momento que lhe ocorreu que, quando ela e Nico tinham avistado as quimeras mais cedo, eram justamente as quimeras. Duas delas.

– E a outra quimera?
– É aquele monte de poeira molhada indo embora.

Ela suspirou, aliviada, assistindo o que um dia tinha sido uma quimera desaparecer no ar lentamente. Nico devolveu a espada negra para a bainha, limpando o suor do rosto com a manga do casaco de aviador. Assim que terminou o gesto, Morgan decidiu surpreendê-lo com um direto de direita no braço.

– Por que você fez isso?!
– Por quê eu fiz isso? Porque você achou que era uma ideia muito boa enfrentar duas quimeras sozinho nesse seu estado quase etíope de ser, me largando pendurada naquela droga daquele penhasco sem poder fazer nada pra ajudar! Eu estava morrendo de preocupação!

A filha de Hecate percebeu que aquela frase atingiu Nico mais forte do que o soco, momentos antes. Ela se repreendeu mentalmente por dizer o que não devia, num momento não muito bom, então logo tratou de se recompor, cruzando os braços em frente ao peito, apoiando o peso do corpo na perna boa.

– A-além do mais… do jeito que eu me saí esta tarde no Argus II, se eu não te devolver inteiro pra sua irmã, prefiro nem pensar nas barbaridades que vou ter que ouvir daquele loiro aguado filho de Zeus.
– Júpiter.
– Que seja. – ela fez um gesto com a mão, ficando séria de novo em seguida – só não faz uma coisa dessas de novo, tá bom? Eu não me sentiria bem.

Ela deu um abraço no menino. A respiração dele era calma, embora ela pudesse sentir seu coração levemente acelerado. Recordando-se do tinha ido fazer naquele lugar, Morgan o soltou.

– Vamos voltar para o acampamento. Preciso fazer o ritual no centro do círculo.
– Certo.

O caminho de volta ao acampamento improvisado aconteceu entre escaramuças e monstros mortos. Morgan começava a pensar que, uma vez que Gaia estava a caminho de despertar dentro de algumas semanas, aquilo devia estar ligado à ela de algum modo. Precisava erguer logo o campo de proteção para que tivessem uma chance de se restabelecer para então seguir caminho novamente. Estava internamente feliz pelos combates que enfrentavam rumo ao acampamento, pois assim não se lembrava do clima constrangedor que ela havia colaborado fortemente para criar minutos antes. Nico também não parecia querer tocar naquele assunto tão cedo, posto que mal era capaz de encarar Morgan direito. Alguns tiros, deslizes (ora ela segurando ele, ora ele segurando ela), espadadas e arranhões depois, finalmente voltaram ao acampamento.

O sol já tinha se posto totalmente quando avistaram o Argus II, mas Leo parecia ter arrumado uma maneira de iluminar todo o local usando lâmpadas e as lanternas do navio voador também. O filho de Hefesto podia ser visto numa mesa de trabalho bagunçada sobre o convés mexendo numa esfera de bronze com a qual Morgan não tinha familiaridade alguma, cheia de fios, mecanismos e botões, sob os olhares atentos de Hazel e Piper. Jason e Frank estavam em lados opostos e Morgan via sinais de um combate recente, decerto contra os monstros que haviam sido capazes de encontrá-los agora que eram capazes de farejá-los. Hazel veio imediatamente ao encontro da dupla, descendo pela rampa.
– Vocês estão bem?
– Firmes e fortes. – ela sorriu, escondendo o cansaço – parece que vocês estiveram bem ocupados também.
– Sim. – ela suspirou – a chuva nos atrapalhava bastante, mas não tanto quanto os monstros.
– Nós conseguimos marcar todos os pontos para o círculo sem problema, mas só posso fazer o ritual perto da meia-noite.
– Tudo bem. É melhor vocês descansarem e comerem algo. Não sabemos quando eles vão voltar até lá.
A dupla concordou silenciosamente e fez o que Hazel sugerira. Morgan recostou-se no tombadilho para comer seu sanduíche, cansada. Tão cansada que mal percebeu quando dormiu.

Uma brisa soprava suavemente em seu rosto quando ela abriu os olhos. Mas o Argus II não estava lá. Ao invés do tombadilho, estava encostada numa grande pedra. O céu estava iluminado apenas pelas luzes das estrelas e a muitos metros lá embaixo ela podia ouvir as ondas quebrando no rochedo. A sombra de uma silhueta feminina aparecia por detrás da pedra. A menina se levantou e contornou a rocha, encontrando uma mulher jovem e bonita, com traços clássicos como os das estátuas gregas de mármore. A pele de alabastro pálida parecia brilhar debaixo das luzes das estrelas, em forte contraste com o cabelo negro que corria solto, servindo também para destacar os olhos inteiramente negros. Quando ela sorriu, pareceu ficar ainda mais jovem do que já aparentava ser. Seu vestido verde escurdo sem mangas descia até o chão como se formasse ondas.

– Quase pensei que você nunca mais estaria longe o bastante da gente de seu pai para podermos conversar.
– Não esperava ver a senhora tão cedo, mãe.
– Infelizmente eu não disponho do tempo que gostaria, então serei breve. Você está prestes a encontrar a maior encruzilhada de sua vida até agora, minha querida. Pense suas escolhas com mais cuidado e menos impulsividade.

A semideusa tomou fôlego para perguntar o que ela queria dizer com aquilo, mas quando se deu conta já estava de volta ao Argus II, a mão esticada para o nada. Deuses… parecia até que era uma espécie de hobby deles “iluminar” as mentes de seus filhos com palavras sem sentido até que tudo fosse tão óbvio que só sendo uma porta para não entender. Deixando aquele sonho de lado, concentrou-se no que ainda tinha pela frente. O céu noturno já estava bem escuro quando ela despertou. Leo ainda trabalhava freneticamente na esfera de bronze e o resto do grupo parecia ter acabado de sair de uma pequena escaramuça.

– E aí gente, prontos pro show de luzes?
– Morgan!
– Já passou da hora… – Jason guardava sua espada, azedo
– Nada tema, jovem filho de Júpiter, com a LeFey aqui não há problema. – ela passou pelo semideus, visivelmente descontente com a presença dele

Sem delongas, caminhou até o centro do acampamento. Sentia-se ligeiramente desconfortável com todos a observando, ainda mais da maneira como podia ver a expectativa cada vez maior nos olhares dos outros semideuses. Muita coisa estava em jogo. Ela fechou os olhos, afastando todos os pensamentos desnecessários de sua mente, respirando fundo para começar o ritual. Ela sentia seus braços e pernas se aquecerem conforme ela inspirava e expirava, concentrando-se somente no som de sua própria respiração. Por um momento, foi como se o mundo se calasse. Com cuidado, concentrou-se nos sons que ouvia: o vento soprava devagar e arrastado. Em algum lugar, folhas quase secas farfalhavam preguiçosamente e ainda mais longe, quase que imperceptivelmente, ondas quebravam entre as pedras. Ela sentia o calor de seus braços e pernas arder mais intensamente, finalmente alcançando seu peito. Estava na hora de começar.

Ela não abriu os olhos para ver para onde estava indo em meio aos seus passos, ou o que atingiria com seus gestos. Repetia os movimentos que aprendera desde sempre com suas irmãs, repetindo as palavras necessárias para realizar o ritual. Não eram muitas, mas precisavam ser repetidas para aumentar a força e a vontade contidas no ato. Depois de algumas repetições, sentia os braços pesados e formigando de leve, assim como suas pernas. Ela não podia admitir a própria alegria pela condução correta do ritual, então apenas continuou o que estava fazendo, culminando para o final dos movimentos. Quando sentiu suas mãos tocarem o chão, aquela sensação de formigamento se esvaiu por completo e ela sentiu que fosse cair. Só percebeu que tinha deixado de sentir a dor do corte adquirido na perna quando ela voltou com tudo. Fez uma careta, abrindo os olhos e então percebendo a cúpula mágica que se formara sobre o acampamento, desaparecendo até mesmo com as nuvens que encobriam o céu e a impedia de ver as estrelas (mas era engraçado perceber que isso acontecia só em volta do acampamento).

Piper, Nico, Leo e Frank estavam absolutamente atônitos, observando com maravilha a redoma de luz azulada e pálida e se agitava no céu. Hazel parecia igualmente surpresa, embora menos maravilhada do que seus amigos. Para felicidade de Morgan, Jason parecia ter chupado um limão. Ela passou pelo filho de Júpiter quando subia de volta para o convés, sorrindo ironicamente.

– Segura essa, Silfo. – e estalou o dedo, triunfal
– Não é mais do que seu dever cumprir com a sua palavra.
– Eu sempre cumpro a minha palavra. – ela se afastou dele, em direção à cabine – Você devia tomar cuidado com isso.

Assim, voltaram ao conserto do convés, seguindo as instruções de Leo enquanto ele continuava seu trabalho solitário de gênio maluco com a esfera de bronze. A manhã ainda estava longe de chegar, mas seria apenas naquele momento em que teriam total certeza de que o ritual tinha dado certo.

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