Casa de Hades – Capítulo XIII – Nico

Aquele dia tinha sido um dia bem cheio para Nico. Ele sentia a cabeça lotada de pensamentos e acontecimentos no momento em que voltou ao Argus II com Morgan, quando finalmente foi capaz de se sentar e descansar. Enquanto comia, lembrava-se das palavras que a filha de Hecate tinha dito ainda há pouco sobre ter ficado preocupada. Quando Nico a conhecera na estação de trens Albany, em Nova York, ele tinha visto uma jovem talentosa e desajeitada, mas aquilo lhe caía incrivelmente bem. Ainda na mesma ocasião, teve a oportunidade de vê-la em combate, no momento em que tiveram que se aliar, mas mesmo aquela luta tinha sido muito diferente do momento em que ela enfrentou Jason. Ele se arrepiou, pensando que até agora, de fato, Morgan só lutara de seu próprio lado. Embora, enquanto Nico podia vê-la dormir sentada no convés, ela era exatamente a mesma menina de antes, da estação, aparentemente fora de todo aquele mundo de semideuses e lutas infindáveis por suas vidas e pelo destino do mundo (claro, se você não levasse em conta as roupas sujas, os arranhões e hematomas pelas pernas e braços).
A última coisa que ele realmente não tinha esperado, naquele dia tão caótico e turbulento, tinha sido aquele abraço. Ele não pensara muito a respeito quando decidira deixar Morgan onde estava, em sua corda no penhasco, enquanto ele enfrentava a dupla de quimeras. Com Tanatos livre novamente era possível matar aquele tipo de monstro mais fraco e livrar-se dele por um bom tempo, sem preocupações. Jamais lhe passara pela cabeça a reação que aquela escolha causaria.

A luta não tinha sido uma luta simples. Nico havia passado uma semana aprisionado dentro de uma ânfora, alimentando-se apenas com sementes de Romã para preservar suas energias e isso depois de uma viagem agradável pelo Tártaro onde ele achou que enlouqueceria em diversos momentos. Desde que começara a se recuperar, sentia-se sempre mais cansado do que o normal depois das atividades mais banais, além dos diversos momentos em que pensou não ser capaz de suportar o próprio peso em pé por muito mais tempo. A luta não tinha sido simples, especialmente por ser muito mais extenuante do que seria em qualquer outro momento. Sem a ajuda dos esqueletos, pensava, teria sido impossível sair de lá inteiro.

– Como você está? – Hazel sentou ao lado do irmão
– Bem, só cansado. – ele suspirou
– Aconteceu alguma coisa? Você e a Morgan chegaram tão quietos…
– Ah – ele desviou do olhar da irmã momentaneamente – não aconteceu nada. Ela deve estar exausta também.

A filha de Plutão tinha trazido lanches e sucos. Os irmãos comeram juntos, em silêncio. Nico não se sentia desconfortável na presença de Hazel, ou mesmo obrigado a preencher o silêncio com um assunto qualquer.

– Você e a Morgan parecem se dar bem.

Nico se engasgou.

– C-como assim?
– É só que eu andei prestando atenção e… você não parece muito confortável perto da maioria das pessoas. É bom ver que perto dela você consegue ficar à vontade.

À vontade não é bem mais o caso, eu acho… ele ponderou consigo. Respirou fundo, pensando até onde os olhos bondosos de sua irmã poderiam enxergar. Era difícil lidar com todas aquelas emoções, mas ele tinha decido que seria honesto com Hazel desde o início e não seria diferente agora, por mais que fosse difícil.

– A Morgan… eu não sei o que dizer. Eu sei que vocês do Acampamento Júpiter não tem o menor motivo para confiar nela mas… ela é maravilhosa. Quer dizer, um pessoa maravilhosa.

Suas mãos ficaram subitamente suadas e frias, embora sentisse suas bochechas arderem. Mas se tinha algo que Nico amava em sua irmã era sua capacidade de conseguir deixá-lo confortável nos momentos em que ele sentia-se mais constrangido. Este era um deles.

– Eu fico feliz com isso, de verdade. – ela sorriu – você sabe que eu não sei até quando Tanatos vai fazer vista grossa sobre… eu. Me sinto aliviada por ter alguém em quem você confia além de mim.
– Hazel…
– Além do mais, ela parece gostar de você também.

Ele quase deixou o copo de suco cair, tamanha estupefação, mas conseguiu impedir que um dilúvio de laranja atingisse seu lanche. Seu rosto ardeu mais. Hazel riu, colocando a mão em frente à boca.

– Tente descansar o máximo que puder. Vamos precisar de toda a ajuda possível pra colocar o Argus II em forma e seguir com a viagem.

Ela pousou a mão no ombro do irmão antes de levantar-se e deixa-lo. Nico levantou o olhar para Morgan, mas agora estava ainda mais difícil observar o semblante tranquilo da menina sem ficar envergonhado. O abraço de Morgan tinha sido quente e aconchegante; o escorregar suave e rápido dos dedos dela através da nuca dele o tinha arrepiado. Ele não se lembrava de algum dia estar tão confuso e ansioso como estava agora.

Tão concentrado e imerso em seus pensamentos que se assustou com a movimentação repentina de Morgan. Ela acordou de sopetão (o que não era muito surpreendente entre os semideuses), com uma expressão confusa e consternada. Se o garoto pudesse apostar, diria que ela tinha acabado de ter um sonho não muito tranquilo. Ela olhou para os lados e então para o céu, como que acostumando-se com o lugar onde estava, finalmente esfregando o rosto e soltando um longo suspiro. Pelo jeito, aquele tinha sido um sonho e tanto. E então os olhos verde-amarelados da jovem, quase felinos, encontraram os olhos de Nico. Ela apenas sorriu, levantando-se e apontando o céu. A hora certa para o ritual.

Mancando, ela desceu a rampa do navio até estar no centro do acampamento improvisado. Trocou suas usuais farpas com Jason Grace antes de começar o que tinha chamado de “show de luzes”, e aquele termo não poderia estar mais certo dentro de algum tempo depois. Todos amontoaram-se no tombadilho para assistir o ritual, que começou de maneira tímida. Ela ficou alguns minutos parada, sem fazer nada além de respirar, o que era bem inuzitado para Nico, que a vira realizar algumas magias antes e bem diferentes daquela. A expectativa era tão grande que ele não fora o único a demorar para perceber que havia algo pulsando num ritmo constante; primeiro o vento, e depois as próprias ondas do mar, bem ao longe. Tudo parecia de acordo com a respiração da semideusa e era possível sentir algo diferente no ar, uma sensação de ansiedade crescente indicando que algo grande estava para acontecer. Com a voz baixa, mas ritmada e firme, ela começou a dizer as palavras do ritual: “Senhora mãe de todos os caminhos / Senhora mãe da lua decadente / Senhora mãe do oceano sem fim / Com esta prece eu lhe rogo / Derrame seu véu de proteção sombria / Sobre estes tolos que encontram-se nesta encruzilhada / Pela bondade da Donzela / Pelo rigor da Mãe / Pela sabedoria da Anciã / Ajude-nos a salvaguardar nosso caminho”.

Ao mesmo tempo, Morgan dançava. Não era exatamente uma dança, ou mesmo uma dança bonita, mas Morgan estava deslumbrante. Movia-se com leveza e precisão, mesmo de olhos fechados, com uma expressão serena no rosto. Frágil e ao mesmo tempo poderosa. Alheia ao entorno, mas ao mesmo tempo vivaz. Uma visão para guardar na mente por toda uma vida.

Um a um, pilares de luz erguiam-se em direção ao céu sem lua nos locais onde ela tinha feito as marcações mágicas. Quando a última das luzes se acendeu o acampamento todo estava iluminado e brilhava em tons de azul ciano. Os pilares de luz convergiram para um único ponto no céu que parecia ascender ao infinito, antes de concentrarem-se num grande clarão azul que começou a formar um domo sobre o acampamento, do céu até o chão. Naquele momento, Morgan estava com as mãos espalmadas na terra molhada e seus braços, pernas e rosto estavam iluminados pela mesma luz azul, como tatuagens brilhantes, formando símbolos, letras e desenhos com os quais Nico não estava familiarizado. Quando o domo de luz finalmente alcançou o chão a filha de Hecate abriu os olhos e se levantou, observando seu trabalho com satisfação. Ela passou por Jason, zombeteira.

– Segura essa, Silfo. – e estalou o dedo, triunfal
– Não é mais do que seu dever cumprir com a sua palavra.
– Eu sempre cumpro a minha palavra. – ela se afastou dele, em direção à cabine – Você devia tomar cuidado com isso.

Leo e Nico entreolharam-se, ainda boquiabertos.

– Cara… magia é demais.
– Não tenho como argumentar contra isso, e nem quero.
– Almirante! – a voz de Morgan chamou a atenção dos dois – ainda temos um navio voador pra consertar, então recolhe seu queixo caído do assoalho e vamos trabalhar.
– Bem que você podia balançar esse nariz aí denovo e resolver logo esse teto solar indesejado que o convés ganhou.
– Sem essa! Tá pensando que isso aqui é Harry Potter? Não vem com essa de banalizar a minha arte.
– Ok, ok. Vamos voltar ao trabalho gente!

Voltando a dividir as tarefas, todos voltaram aos seus postos. Nico sentiu uma mão em seu ombro quando voltava para o conserto do convés. Morgan sorriu novamente, dando uma voltinha.

– Ritual pronto e eu continuo inteira. Sem ter com o que se preocupar.
– Que bom. Você não viu, mas quando quase desmaiou na sua casa, daquela vez, eu também fiquei preocupado. Desculpe por hoje, mais cedo.

Ele não conseguia ver direito por causa da cálida luz azulada do domo, mas apostaria sua espada de ferro estige que ela ruborizou naquela hora.

– Desculpadíssimo. Agora vamos. Temos um piso nos esperando pra ser consertado.

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