Casa de Hades – Capítulo XIV – Leo

A manhã estava nascendo quando Leo iniciou a instalação da Esfera de Arquimedes. Tinha sido muito difícil trabalhar com todos aqueles ataques e confusões, mas no geral ele tinha sido deixado de lado para cuidar só do aprimoramento do Argus II. O menino estava cansado e frustrado com a própria demora no trabalho. Pensava o tempo que teriam quer fazer o possível e o impossível algumas vezes para chegar à tempo no Monte Pindo, sendo que nem faziam ideia do tipo de adversidade que encontrariam pelo caminho. As coisas não estavam boas, nem um pouco boas.

Frank ainda estava de vigia no convés, mas todos os outros semideuses dormiam. Tinham conseguido, depois de horas de trabalho, consertar o convés quebrado e limpar grande parte do andar debaixo, que ainda tinha resíduos de pedras, poeira, madeira lascada, reboco e água. Leo queria ter tudo pronto para quando despertassem. O mecanismo da esfera era relativamente simples para a quantidade de tarefas complicadas que ele vira aquilo ser capaz de desempenhar e por isso mesmo ele queria entender mais sobre o funcionamento para então instalar no painel de controle do navio. Não seria agradável se o navio fosse pelos ares, ou ejetasse os semideuses, ou ainda se transformasse num robô gigante (muito embora o conceito de “robô gigante” agradasse muito o filho de Hefesto, em essência). Quando finalmente deu seu trabalho de pesquisa por completo, começou a instalação da peça. Fio por fio, fez todas as ligações necessárias. Observou as costas de Frank por um momento, pensando se devia avisar alguém que estava para ligar a esfera ao sistema do navio. Por outro lado, estavam todos tão cansados que seria maldade acordá-los por tão pouco, especialmente se tudo desse certo. Além do mais, se não desse certo, talvez nem precisasse acordar ninguém. Respirou fundo e ligou a chave da Esfera de Arquimedes, segurando a respiração. Com um crescendo, uma série de estalos e cliques espalharam-se por todo o Argus II e Leo podia ouvir os geradores de energia do navio a toda força. Festus disse algo com seus estalos e rangidos que o filho de Hefesto só pode supor ser um mas o que diabos está acontecendo aqui?
Frank voltou-se para Leo com uma expressão tal qual os estalos de Festus. Quando os barulhos finalmente cessaram, os controles de Wii que Leo usava agora dividiam espaço com botões, alavancas e chaves saídas da Esfera.

– O que foi isso?
– A Esfera de Arquimedes está no lugar, finalmente!
– Está?! – o rapaz estava surpreso – Isso é demais! E… o que ela vai fazer agora?

Leo ficou calado por um tempo, pensando. Não tinha contabilizado realmente toda a capacidade da esfera. Era fascinante e ao mesmo tempo perigoso. Naquele momento, infinitamente mais fascinante do que perigoso.

– Digamos que o conseguimos com ela naquela sala do Labirinto não é nada comparado com o que podemos fazer com o Argus II.
– O que significa que você não sabe exatamente o que isso vai fazer, mas aposta que vai ser o que precisamos.
– Exatamente!
– É… parece bom ainda assim. – ele deu de ombros
– O convés está no lugar e a esfera também. Podemos partir agora mesmo. Vamos acordar o pessoal.
– Whoa Leo, calma cara. Eles foram dormir a menos de duas horas, eles precisam descansar um pouco mais.
– Precisam? – o filho de Hefesto suspirou – certo, certo, eles precisam, tem razão.
– Você também devia ir. Você tá péssimo.

Ele sentia o cansaço, mas não queria se deixar abater. Afinal de contas, o que eram dois dias sem dormir direito? Ou ainda, dois dias sem dormir nada? Suas roupas estavam sujas de graxa, icor seco, penas de Pássaros da Estinfália, suor, lama e poeira, mas já havia algum tempo que nada daquilo incomodava o rapaz. Especialmente quando ele pensava no tipo de coisa que Percy e Annabeth deviam estar enfrentando no Tártaro. Afastou aquilo de sua mente, apenas imaginando o tempo que estavam perdendo com aquelas futilidades como dormir. De qualquer modo, um banho parecia uma boa ideia para passar o tempo enquanto esperavam os outros acordarem, além de revitalizar as energias.

Deixou Frank no convés e desceu até seu quarto, que estava uma zona desde a última confusão com o exército de Gaia. Afastou algumas coisas com o pé, pelo caminho, vasculhando a bagunça que estava sua cama atrás de uma roupa mais limpa do que a que estava usando. Depois de garimpar sua zona por algum tempo, rumou para o chuveiro.

Quando retornou ao convés sentia-se com o espírito renovado. Pronto para alçar voo e detonar uma legião de monstros, se necessário. Uma bandeja com café da manhã tinha sido posta sobre a mesa bagunçada de Leo. Na proa do navio, Morgan discutia com Frank enquanto Nico assistia atentamente, arriscando alguns palpites vez ou outra.

– Ok, se prepara Morgan. Eu jogo as Fúrias. – Frank parecia triunfal
– Boa jogada. Elas aumentam o poder total em 400 quando Hades está em campo. – Nico segurava o queixo, pensativo
– É só o que você tem pra mim Zhang? Eu estava errada em esperar mais de você, pelo visto. – Morgan deu de ombros, sem demonstrar surpresa
– Cuidado Frank, acho que ela tem um plano.
– Será? – ela jogou mais uma carta na mesa, arrancando uma expressão de surpresa de Frank – Eu jogo a Prece de Apolo. Ela corta o efeito de buff que Hades dá para as Fúrias e manda elas de volta chorando pro monte de descarte.
– Você só pode jogar essa carta se tiver… – mas ela não deixou Frank terminar de falar
– A Primavera de Coré. Ou Démeter. Pode escolher. – ela estendeu a mão com as cartas na direção do filho de Marte, divertida
– Mas como é possível você ter as duas cartas na mão na mesma jogada?!

Leo viu Frank lançar um olhar assassino para Nico, que estava ao seu lado, de pé. Era curioso pensar que Frank, com aquela cara de bebê, era capaz de olhar tão feio para alguém em algum momento de sua vida. Ele também se perguntou quando exatamente Nico passara a ter outras coisas com as quais se importar.

– Ah Zhang, fala sério, você foi muito previsível. Todo oriental que joga Mitomagia só sabe jogar apelando. A Primavera e Démeter são os counters mais padrões. – ela deu de ombros – não é como se alguém estivesse cantando suas cartas pra mim.

Ele bufou, dessa vez dividindo o olhar entre Morgan e Nico, como sempre entendendo as coisas por último. Se Nico e Frank dedicassem toda aquela nerdice ao combate contra Gaia, a deusa pediria desculpa de joelhos. Mas, infelizmente, estava na hora de acabar com o recreio.

– E então, animados para a decolagem?
– E aí Almirante! – a jovem voltou sua atenção para ele – Tá parecendo até outra pessoa sem toda aquela camada de graxa e fuligem.
– Nossa, é você Morgan! – ele fingiu surpresa – quase impossível te reconhecer no meio de toda essa nerdice de Mitomagia.

Ela, Nico e Frank o encararam em silêncio, mal-humorados, por alguns instantes. Se acertar dois coelhos com uma cajadada só era difícil, que dirá três.

– Onde estão os outros?
– Hazel acabou de acordar. A Piper e o Jason estavam na cozinha comendo, e acho que o Hedge só está lá pagando de vela mesmo.
– Vamos reunir todos no convés. Precisamos nos organizar e decidir o que faremos da nossa viagem até o monte Pindo.
– Aye aye, eu vou chamar o pessoal.

Não demorou, todos reuniram-se no convés, perto dos novos e aprimorados controles do Argus II. Debateram por algum tempo sobre a melhor rota para tomarem até o Monte Pindo, embora fosse possível seguirem uma linha reta de onde estavam. A maior questão era o fato do Argus II não ser capaz de sobrevoar o Monte Pindo devido a grande altitude do mesmo. A opção mais óbvia a partir daquilo seria terminar a escalada à pé, mas Gaia teria muitas chances de impedi-los daquela forma. No momento a melhor opção era voar até o local e então procurar uma passagem entre as montanhas que pudessem usar.

Feito os preparativos, decolaram.

Lá embaixo era possível ver o grupo de espíritos da natureza do dia anterior, perplexos com o desaparecimento do navio voador e sua tripulação de semideuses, embora estes estivessem apenas alguns metros acima do acampamento improvisado. Realmente, a barreira mágica fizera o que ela se propusera a fazer. Mais alto no céu, atravessar a barreira mágica foi como atravessar uma membrana gelatinosa. Uma sensação engraçada e fresca percorreu o corpo de Leo, junto com uma levíssima pressão.
O céu estava limpo e perfeito para voar. Aquilo fazia Leo sentir-se pouco mais confiante. A instalação de Esfera de Arquimedes parecia ter ocorrido com uma perfeição muito acima do esperado e o garoto tinha certeza de que aquilo seria um fator decisivo na hora em que tivessem de resgatar Percy e Annabeth. A todo o momento, ele recordava-se das palavras de Gaia sobre ele ser o sétimo semideus, aquele que não se encaixaria em lugar algum. Agora, mais do que nunca, ele estava decidido a fazer com que Gaia se sentisse daquela maneira, preferencialmente por muitos e muitos Éons. Segurou os controles de Wii na mão com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos, mas Leo não se deu conta daquilo. A única coisa que tinha em vista no momento era salvar seus amigos e impedir que a deusa da Terra voltasse à vida. Todo o resto poderia esperar.

Os outros semideuses circulavam atentos pelo convés, mas tudo transcorria sem problemas. O vento era bom e constante. Os relatórios do Festus sobre a instalação da Esfera de Arquimedes eram bem positivos. Leo tinha uma infinidade de funções novas do navio para aprender e colocar em prática. Seria divertido descobrir todas as novas funcionalidades do navio agora. Em especial, tinha uma nova versão tridimensional dos mapas da região muito interessante que, Leo acreditava, ele poderia usar para buscar por caminhos alternativos entre as montanhas. Já que a viagem estava tranquila até o momento, seria um bom meio para passar o tempo.

Mas, foi só pensar isso, do alto do ninho do corvo ouviu Morgan gritar avisando sobre a aproximação de uma revoada de pássaros da Estinfália. Mas era um aviso fútil, já que no meio do céu ensolarado, uma nuvem negra de aves-monstro formava-se no horizonte. Aquela seria a primeira prova de fogo do novo sistema do Argus II.

Leo mal podia esperar.

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