Casa de Hades – Capítulo IX – Percy

O caminho transcorreu de maneira relativamente tranquila quando Annabeth despertou. Eles comeram um pouco, embora não sentissem fome, checando o machucado no tornozelo da semideusa antes de prosseguirem. Apesar das poucas horas de sono, era como se a garota estivesse aparentemente ainda mais cansada do que antes, embora se forçasse a continuar a andar. Percy sentia-se angustiado, percebendo que a pessoa que ele ajudava a andar naquele momento parecia menos Annabeth a cada passo que avançam. Ele se perguntava se ela tinha a mesma impressão de Percy, ou ainda se ela estava sentindo mais os efeitos da energia do Tártaro por estar ferida. Qualquer possibilidade que lhe viesse à mente parecia a mais plausível e a mais absurda ao mesmo tempo.

Pelo momento ele considerava uma grande coisa não terem encontrado com nenhum monstro ou habitante do Tártaro até aquela altura do trajeto. Para Percy, estar no Tártaro naquele momento era, provavelmente, como ser o Batman e estar no Asilo Arkham; o rapaz havia despachado dúzias e mais dúzias de monstros para a infame prisão do Submundo, incluindo na lista o próprio Chronos. Não topar com nenhuma criatura clamando por vingança era um ponto muito positivo naquele contexto, e provavelmente o único. Mas, uma coisa chamava a atenção de Percy desde a sua noite (ou dia) de vigília enquanto Annabeth dormia: ele passara a ouvir sussurros. No começo ele pensou que podia ser a própria Annabeth falando enquanto dormia, mas ela não havia emitido nenhum ruído (embora não parecesse ter tido o sono mais restaurador de sua vida). Conforme avançavam, Percy compreendeu que as vozes vinham de toda a parte, fazendo-o sentir quando visitara o Aquário de Fórcis. A diferença é que ele não ouvia um bando de criaturas marinhas animadas com a presença do filho de Poseidon, mas, acreditava ele, as vozes daqueles aprisionados no Tártaro.

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Como Nico conheceu Morgan – Adendo

Antes de ir embora de Detroit, Morgan decidiu visitar a Igreja de St. Anne, a favorita de sua mãe. Fora construída por colonos muitos e muitos anos antes e o local inteiro irradiava magia. Segundo Titânia tinha lhe explicado na primeira vez em que visitaram o local, a obra tinha sido encomendada por uma filha de Hecate que atuava como curandeira naquele local, quando Detroit ainda não passava de um pequeno povoado. Ainda segundo sua irmã mais velha, era um local que sempre atraía filhos de Hecate, mesmo aqueles que não tinham conhecimento sobre suas origens.

Ela inspirou o ar da praça familiar com nostalgia. Ela e Alabaster tinham feito aquele mesmo caminho em busca das palavras de sabedoria da mãe pouco antes de aderirem à causa de Luke Castellan. Os filhos de Hecate estavam cansados da maneira como as coisas aconteciam para os semideuses que não eram reclamados por seus pais. Sabiam que a vida que levavam entre as paredes da casa de Titânia era uma total exceção à regra entre os semideuses, especialmente aqueles que, como os filhos de Hecate, não dispunham de um lugar apenas deles dentro do Acampamento Meio-Sangue. Nenhum dos dois irmãos jamais estivera lá, mas tampouco acreditavam que desejariam estar um dia. O levante contra o Olimpo era a oportunidade perfeita para acertar a ordem daqueles fatores.

Mas o caminho até desacreditarem da causa tinha sido longo e doloroso.

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Como Nico conheceu Morgan – Pt. V

Parte V – Nova York
Rua Luquer, 9h

Nico despertou, sentindo-se bem descansado. Não lembrava-se da última vez que tinha dormido tão confortavelmente, numa cama tão macia e quentinha quanto a do quarto de hóspedes da casa onde Morgan vivia. Ele se levantou e esticou os cobertores, sem muita prática. Podia ouvir vozes e passos pelo corredor. Ainda se sentia desnorteado pela série de acontecimentos que sucederam a chegada dos semideuses à casa.

A casa era espaçosa e aconchegante, em todos os sentidos. Quando atravessara a porta, na noite anterior, deparara-se com um corredor longo que dividia-se em duas portas opostas, um arco no final e uma escada à direita. O papel de parede vitoriano tinha ornamentos vinho sobre o fundo bege queimado. Titânia, a irmã de Morgan, aparentava ser uma mulher no auge de seus 35 anos. Mas ao contrário de Madelaine que tinha uma aparência jovial largamente atribuída aos seus gestos e trejeitos, Titânia era austera e rígida em sua maneira de falar, agir e vestir-se. A postura estava impecavelmente perfeita, assim como sua roupa passada e engomada. Vestia-se quase como uma governanta vitoriana; a camisa branca parecia ser puramente de algodão, as mangas longas terminavam em punhos adornados com uma discreta fileira de renda. A saia longa projetava-se em direção ao chão a partir da cintura, reta, lisa e cor de terra molhada, sua barra pairando como a boca de um sino em torno das botas de couro marrom que ecoavam no assoalho de madeira conforme ela andava. Seu cabelo era cor de fogo, curto e cacheado, cuidadosamente preso e modelado num penteado típico das mulheres durante a década de 1950. O batom escuro combinava com o tapa-olho do lado esquerdo, ajudando a destacar ainda mais o olho azul hortência dela. Continuar a ler

Como Nico conheceu Morgan – Pt. IV

Parte IV – Nova York
Estação da Rua 86, 23h40h

Morgan ajeitou o cachecol e a bolsa do violão no ombro quando deixou a estação de metrô, apressando o passo. A noite estava fria o bastante para fazer com que ela pensasse em comprar uma meia-calça mais grossa para usar junto com seu short jeans preto e surrado. Ainda havia algum movimento nas ruas e alguns policiais iam e vinham entre o fluxo de transeuntes, o que a tranquilizava. A última coisa da qual era precisava era de um trombadinha mortal para lhe importunar. Seguiu até o ponto de encontro combinado anteriormente com seu contato e esperou. Odiava estar adiantada. Apesar disso, a noite sempre lhe agradara, e esta era uma noite especialmente bonita, o céu urbano tão limpo quanto poderia estar. Ela se recordou da paisagem mais rural que avistara durante a sua viagem, lembrando-se das estrelas e do céu infinitamente mais limpo com um quê saudoso. Fazia apenas algumas horas desde que deixara tudo aquilo para trás, mas já sentia falta.

A lua estava bem alta no céu, indicando a meia-noite. Um funcionário do parque passou, avisando que logo fechariam os portões e ela apenas acenou, em concordância. Mecanicamente, seus dedos gelados percorriam as ranhuras e relevos do embrulho que Madelaine Bloodheart tinha feito com cuidado para o livro, enquanto seus olhos vasculhavam os arredores em busca de uma figura conhecida. Todos os seus sentidos estavam alertas. Ela sabia que era errado entregar um livro como aquele para uma pessoa que não lhe inspirava confiança alguma, mas aquele tinha sido o acordo e ela cumpriria com sua parte em nome de seu pai. Ela suspirou, cansada da viagem, quando avistou uma pessoa pelo canto do olho. O manto azul e a cabeça raspada eram inconfundíveis. Continuar a ler

Como Nico conheceu Morgan – Pt. I

De Nova York à Toledo
Nova York, Albany Station, 20h

Nico di Angelo emergiu de uma sombra na estação. O fluxo de mortais não era grande naquela parte do terminal de trens, então ele não estava preocupado se havia sido visto ou não. Desde que ele havia começado sua busca pelas Portas da Morte, alguns meses antes, de tempos em tempos o garoto retornava ao mundo humano para descansar um pouco de sua missão solitária. O tempo passava e ele começava a ficar sem absolutamente nenhuma ideia dos locais onde poderia procurar, o que o deixava preocupado. Havia poucos lugares onde ele ainda não havia buscado e as opções restantes não eram animadoras.

Ele se encaminhava para a saída da estação quando, por cima das conversas das pessoas, passos indo e vindo, rodinhas de malas rodando pelo piso e anúncios nos autofalantes sobre os horários, chegas e partidas dos trens, ele teve a impressão de ouvir uma melodia. Começou baixa e meio tímida, mas começou a ganhar volume gradativamente, conforme o rapaz aproximava-se da fonte para ver o que grande parte da estação havia parado para ver também. Ali, com um violão cor de mogno pendurado numa bandoleira, uma menina se apresentava, o estojo do violão aberto no chão, provavelmente para receber gorjetas. Quando ela começou a cantar, era como ouvir a voz das próprias ninfas, doce e suave, mas havia uma nota profunda de melancolia nas pausas da música. Os cabelos pretos e brilhantes estavam soltos por baixo da boina de lã, e algumas mechas caíam-lhe sobre os ombros conforme ela se movia. Um casaco preto, também de lã, escorregava um pouco de um dos ombros, ficando mais baixo que o outro lado, junto com as mangas que por pouco não lhe cobriam os dedos, conferindo-lhe um charme assimétrico e descuidado, reforçado pelos coturnos surrados e o cachecol comprido. Enfim, quando a música terminou, ela fez uma mesura rápida, quase perdendo os óculos prateados de aro fino, rapidamente ajeitando-o com uma das mãos. Seu talento fora largamente recompensado pelas pessoas, que logo voltaram às suas rotinas, como se aquela música jamais tivesse passado-lhes pelos ouvidos, mas aquilo não pareceu incomodar a menina, que se colocara a arrumar suas coisas. Nico estava atônito, o único que não saíra de seu lugar ainda.
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